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Se por um lado existe uma forte relação de confiança com os professores, a escola não é, todavia, um ambiente seguro para todas as crianças. É necessário ser mais vigilante e ativo diante das situações de bullying e exclusão.
O bem-estar subjetivo é uma dimensão importante no estudo da qualidade de vida das crianças. Nos últimos anos, foram conduzidos estudos regulares para examinar o bem-estar subjetivo das crianças na população em geral, no âmbito do Children's Worlds Project, desenvolvido pela International Society of Child Indicators (ISCI), com o apoio de peritos da OCDE, UNICEF e World Vision. Com este projeto recolhem-se dados sobre as vidas das crianças, o modo como utilizam o seu tempo e como percecionam o seu próprio bem-estar. A terceira e última fase de recolha de dados decorreu de 2016 a 2019, abrangeu 35 países de todos os continentes e contou com a participação de 128000 crianças. O objetivo é promover o bem-estar das crianças e o seu envolvimento nos assuntos relacionados com as suas vidas, em cumprimento da Convenção sobre os Direitos da Criança. O conceito de bem-estar subjetivo envolve várias dimensões e está relacionado com o que cada pessoa pensa, avalia e sente sobre a sua vida. Essa perceção pessoal pode ser feita a partir de uma avaliação cognitiva, que resulta de julgamentos relacionados com a satisfação com a vida, e de uma componente afetiva, que se associa ao conceito emocional de felicidade. Embora o bem-estar subjetivo seja um processo individual, existe uma correlação positiva entre o bem-estar subjetivo e o contexto interpessoal, social e familiar. A existência de uma rede de apoio escolar funciona como um fator de proteção para as crianças, especialmente significativo para as que se encontram em situação de vulnerabilidade social.
Estabilidade destacada. Por cá, no âmbito da terceira fase de recolha de dados, coordenada pelo Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS, ISCTE-IUL), o Centro de Investigação e Inovação em Educação (inED, ESSE-IPP) selecionou uma amostra de escolas públicas na Área Metropolitana do Grande Porto, tendo como alvo crianças com 10 anos de idade (ou a frequentar o 5.º ano). Os dados foram recolhidos diretamente junto de 211 crianças, através da aplicação de questionário, tendo sido feita a recolha desta informação em contexto de sala de aula. Os resultados obtidos revelam a opinião destas crianças sobre a escola. Face à afirmação “se tiver um problema na escola, os professores ajudam-me”, 86% das crianças concordaram fortemente ou totalmente. Perante a afirmação “os meus professores ouvem-me e têm em conta o que eu digo”, 78% concordaram fortemente ou totalmente. Todavia, inquiridos sobre se sentiam seguros na escola, 15% concordaram mais ou menos, 2,4% concordaram um pouco e 0,9 não concordaram. Igualmente significativo é o grupo de crianças que afirma ter sido agredida, insultada ou excluída por outras crianças na escola, uma ou mais vezes, no último mês: 21%, 45% e 37%, respetivamente. Face à pergunta “com que frequência te preocupas com a quantidade de dinheiro que a tua família tem”, 23% responderam sempre, 15% com frequência e 35% por vezes, sintoma da precaridade e da pobreza da realidade social portuguesa. Apenas 32% declararam conhecer a Convenção sobre os Direitos da Criança, o que evidencia a necessidade de a divulgar e, deste modo, promover o direito das crianças de intervir no mundo ao seu redor, através da participação nas decisões sobre os assuntos que afetam as suas vidas. Neste estudo, destaca-se a importância da estabilidade, da relação estável e comprometida com os educadores, e da existência de uma rede social de amigos. Se por um lado existe uma forte relação de confiança com os professores, a escola não é ainda, todavia, um ambiente seguro para todas as crianças. Logo, é necessário ser mais vigilante e ativo diante das situações de bullying e exclusão que um grupo minoritário de crianças ainda sofre. Para que a escola possa ser o que só pode ser – um espaço educativo de compromisso e de alegria, de partilha e de cooperação, de combate aos preconceitos e à injustiça.
Paulo Delgado
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