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A crise da replicação de resultados e a paisagem científica

A procura do ‘interessante’ poderá estar na origem do p-hacking. A prática consiste na eliminação de dados que não contribuem para uma determinada significância estatística desejada. A partir de determinado momento, este comportamento pode ser considerado ilegítimo.

A crise de replicação dos resultados científicos parece cada vez mais referenciada. Um número considerável de investigações não consegue ser repetido por outras equipas de cientistas. Estamos, então, perante uma série de factos que põem em causa o normal funcionamento da Ciência: muitas descobertas não são confirmadas por outros, o que faz pensar sobre se realmente são descobertas ou serão outra coisa distinta. Mas o que poderá estar por detrás desta crise?
A procura do diferente, do chamativo, constitui uma ordem de razões que explicará este fenómeno (Weitzman, 2021). Muitas investigações tendem a ser pensadas a partir de fatores externos ao conhecimento, como o seu impacto na comunidade científica: de que modo o que faço poderá ser chamativo ou cativar as audiências? de que modo o meu trabalho pode gerar citações noutros artigos? Estamos, bem vistas as coisas, perante fatores que, frequentemente, não pertencem à esfera do que é científico.
Daí podermos compreender a referência que Ritchie (2020) faz a um irónico repto para que a ciência se torne novamente aborrecida. Este repto constituiu-se, inclusive, numa revista científica na área da economia que pretende receber artigos aborrecidos (Piper, 2019). A ideia subjacente é que só a procura mais desinteressada de conhecimento poderá salvar-nos de um crescente número de investigações que não podem ser replicadas.
Esta procura do interessante poderá estar na origem de práticas conhecidas como p-hacking. A prática consiste na eliminação de dados que não contribuem para uma determinada significância estatística desejada. A partir de determinado momento, este comportamento pode ser considerado ilegítimo.

Outra explicação para este estado de coisas poderá estar relacionada com o regime bibliométrico atual. Há uma proliferação de métricas que transformam os artigos em produtos mensuráveis por citações e indicadores construídos a partir delas. É a máxima sobejamente conhecida do ‘publish or perish’. De facto, a vida útil dos artigos – isto é, a janela temporal em que eles são citados – é cada vez mais reduzida. Esta mensuração do artigo a partir do número de vezes que ele é nomeado poderá ter efeitos perniciosos. Compliquemos um pouco mais as coisas. A procura do interessante, esta pressão mediática, faz com que se comece a pensar em combinações chamativas de conteúdos, na sua presença em redes sociais na área da investigação e de acesso geral. Aliás, desenvolvem-se indicadores de impacto científico em que os ‘likes’, os comentários, as partilhas são também contabilizadas.
Os indicadores nesta área tendem a transformar o artigo científico num objeto digital, igual a tantos outros, sobre o qual se poderão aplicar mensurações semelhantes. Será que o sucesso de um determinado trabalho científico nas redes sociais poderá estar correlacionado com o seu posterior impacto científico? Já se estudam estes fenómenos e relações...

Paisagem agreste. São estes alguns dos elementos da paisagem científica, do pano de fundo sobre o qual atualmente se publica e se trabalha na área da Ciência. Realçamos, então, a pressão mediática e as eventuais consequências negativas que as medições de impacto poderão ter na produção científica.
O advento da internet, das redes sociais, possibilita outro acesso à informação, à sua proliferação (facilidade de publicação, aumento do número de revistas científicas, etc...), e poderá ser um fator mais a somar a esta paisagem agreste.
Mas eis que temos mais uma ferramenta, bastante peculiar, para nos guiar nestes pantanosos terrenos do que é e do que não é verdadeira Ciência. O Retraction Watch Blog pretende ser um local de arquivo e consulta de artigos que foram retirados das revistas. Numerosos trabalhos que são pré-publicados ou que, depois de publicados, se descobre conterem erros científicos e são retirados, podem ser consultados neste espaço internáutico.
Num mundo em que o acesso à informação é cada vez mais fácil e imediato, compreendemos a necessidade da existência das grandes bases de dados científicas internacionais. Pela mesma ordem de razões, compreendemos a existência de um instrumento para nos guiar pelos lugares da não-Ciência.

Rui Tinoco


  
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