Página  >  Opinião  >  No centenário de Paulo Freire, o melhor é estudá-lo

No centenário de Paulo Freire, o melhor é estudá-lo

A obra de Paulo Freire é mais relevante pela respiração crítica sobre a educação e a sociedade do que por eventuais prescrições metodológicas e didatistas. Insiste em que o educador é um decisor que não se pode demitir; critica a “neutralidade insossa” e o estar no mundo “de luvas”; chama a atenção para a complementaridade entre liberdade e autoridade; exige o diálogo com o outro como princípio educativo e ético-político.

Paulo Freire nasceu no Recife, a 19 de setembro de 1921. Comemoramos, por todo o mundo, o centenário do seu nascimento, através de múltiplas realizações, embora com destaque para a publicação de trabalhos académicos sobre a sua obra, em livros e revistas especializadas. Uma obra por muitos considerada como uma das mais relevantes do pensamento educacional da segunda metade do século XX e que continua a ser estudada internacionalmente.
Por essa via, Freire vive, as suas ideias permanecem atuais também pela ação das nossas leituras críticas, dos nossos eventuais encontros e desencontros com a sua vasta obra. É a melhor forma de o homenagear e a mais coerente com a sua conceção do “ato de estudar”.
Para quem se destacou como um pedagogo crítico e um filósofo político da educação é compreensível que a sua contribuição não possa granjear adesão ou concordância generalizadas, nem tal objetivo seria desejável. Nem sequer para ser considerado um autor clássico da pedagogia.
São por isso dispensáveis duas posições antagónicas que se têm manifestado desde a sua morte, em 1997. A dos discípulos mais rigoristas e indefetíveis, exegetas considerados autorizados, adeptos incondicionais e fervorosos. E, ao invés, a daqueles que se limitam a críticas ad hominem, puramente ideológicas, sem argumentação sólida e racional, e, por vezes, sem conhecimento direto e aprofundado das fontes primárias e dos debates e controvérsias em curso.
Por razões distintas, ambos os grupos adotam uma posição hiperbólica quanto às propriedades inerentes à obra do autor: os primeiros, exagerando as suas dimensões salvíficas e tendendo a reduzir drasticamente a complexidade, tal como as possíveis contradições de um autor, à univocidade de um receituário que garantiria o sucesso do curso da ação educativa; os segundos, diabolizando a obra como origem de todos os males, apontando para pretensas imputações empíricas e para nexos de causalidade que demonstrariam os malefícios da sua adoção, como se as ideias do autor já tivessem sido historicamente atualizadas, fossem imediatamente e singularmente operacionalizáveis em termos de políticas educacionais, de planos de ação pedagógica e de injunções didatistas e, finalmente, tivessem já produzido resultados passíveis de avaliação e escrutínio público.

Compreensão crítica. O que pode ser recomendado, até para romper com aquelas alternativas anti-intelectuais e pedagogistas, é que o melhor é mesmo estudar a obra. Uma obra que continua a ser mais relevante pela respiração crítica sobre a educação e a sociedade, fundada em teorias e categorias analíticas, do que por eventuais prescrições metodológicas e didatistas, pretensamente intemporais. Pelo menos a partir da sua obra maior, «Pedagogia do Oprimido» (1970), Freire lançou as bases para uma crítica à opressão de todos os tipos, considerando o papel da educação.
O seu trabalho resulta numa contribuição para uma compreensão crítica da educação e da ação pedagógica, entre outros elementos, ao insistir em que o educador é um decisor que não se pode demitir; ao criticar a “neutralidade insossa” e o estar no mundo “de luvas”, com uma postura “acinzentadamente imparcial”; ao chamar a atenção para a complementaridade entre liberdade e autoridade; ao exigir o diálogo com o outro enquanto princípio educativo e ético-político.
As suas críticas à “educação bancária”, às organizações oligárquicas e burocráticas, às lideranças vanguardistas e dirigistas, ao dogmatismo e à propaganda, à “coisificação” das massas, ao “basismo” e ao “elitismo” enquanto formas de sectarismo, representam alguns dos mais importantes princípios da sua pedagogia.
E não continuam hoje claras as maiores dificuldades de respiração, em termos metafóricos e literais, e não apenas face a conceções tecnocráticas de educação, mas também considerando o exercício da violência física, as restrições à liberdade e à democracia, o desastre ambiental a nível planetário, e até mesmo o acesso ao oxigénio por parte dos atuais “esfarrapados do mundo” em contexto de pandemia?

Licínio C. Lima


  
Ficha do Artigo
Imprimir Abrir como PDF

Partilhar nas redes sociais:

|


Publicidade


Voltar ao Topo