|
Na atual conjuntura, impõe-se a indagação a respeito da memória que no futuro se terá da pandemia, incidindo sobre o que representou, a dor das vítimas, as responsabilidades e omissões nas políticas públicas para a enfrentar, as lições tiradas para o progresso civilizatório, etc.
Pode-se admitir que o que se busca nos ‘lugares da memória’ são signos visíveis do que costumávamos ser, para tentar descobrir o que somos pela constatação do contraste com o que já não somos, como se almejássemos um lampejo de revelação indicador de uma identidade que não achamos, para tornar gerível a nossa relação com o mundo. Desse ponto de vista, pensar numa época significa, também, pensar nos seus ‘lugares da memória’. A questão fica um tanto ‘complexa’ se essa época é o tempo presente, pois, além de se projetar no futuro um devir, demanda-se que se olhe para o presente interrogando-se sobre os fragmentos que estão a constituir os ‘lugares da memória’. Atitudes, comportamentos, hábitos, lugares, paisagens, etc., se vão constituindo em espécies de miradouros da memória coletiva, miradouros de onde o futuro – quando for presente – avistará o passado. Afinal, conforme assinalou o historiador Ciro Flamarion Cardoso, poder-se-á entender a memória coletiva como um conjunto de elementos estruturados que aparecem como recordações, socialmente partilhadas, de que dispõe uma comunidade sobre sua própria trajetória no tempo, construídas de modo a incluir não só aspectos selecionados, reinterpretados e até inventados dessa trajetória como, também, uma apreciação moral ou juízo de valor sobre ela. Por suposto, é necessário considerar as especificidades e implicações da distinção entre a memória autobiográfica – pessoal, vivida – e a memória histórica, ou seja, no dizer do sociólogo Maurice Halbwachs, a memória emprestada pela coletividade ao indivíduo sobre coisas e processos que ele não viveu pessoalmente. Mas mesmo a memória autobiográfica é influenciada pelo impacto do social, sempre filtrada pelo presente. Por outra parte, há de se considerar que a memória é, também, um campo em disputa. Há, no presente, uma capacidade de manipular o passado, impondo diferentes versões sucessivas sobre o mesmo, conforme, por exemplo, mudem as circunstâncias do momento em que se esteja a viver. Manipulação da recordação. O presente depende muito do passado; contudo, a retenção e reconstrução do passado ocorrem no presente, e nele estão ancoradas, pelo que, então, provavelmente há sempre de se ter em vista a possibilidade da existência de ‘memórias herdadas’ e ‘memórias inventadas’.
Ter presente o que se passou. Tendo em conta os apontamentos que, sumariamente, tenho estado a colocar em realce, uma questão que se impõe, na atual conjuntura da pandemia de covid-19, é a indagação a respeito da memória que dela se terá no futuro, incidindo sobre o que o novo coronavírus representou, a dor das vítimas, as responsabilidades e omissões na condução de políticas públicas para enfrentá-lo, as lições tiradas para o progresso civilizatório, etc. A pandemia tem demonstrado como uma parcela da sociedade, em diferentes países, mesmo dependendo dos frutos do trabalho científico, contra ele se tem voltado, rechaçando-o, e mesmo defendendo posições negacionistas. Por outro lado, o novo coronavírus evidencia de modo paradigmático que todos nós – independentemente de vivermos na periferia, semiperiferia ou no centro do sistema mundial – habitamos o memo sistema ecológico e geológico. À medida que a pandemia da covid-19 foi parando o mundo, ela foi, ao mesmo tempo, demonstrando que as fronteiras não são tão sólidas como pretende o nacionalismo extremista, e trouxe a lume o que, embora óbvio, geralmente é ignorado: não temos para onde ir quando uma catástrofe global acontece. Dessa forma, como consequência, gera-se um sentimento de temor compartilhado globalmente. Conforme é compreensão corrente no campo do enfoque da biopolítica, presumir a dor como algo inerente aos dispositivos biológico-afetivos humanos é já, talvez, pressupor o não esquecimento dos processos que esmagam a existência e enclausuram o ser em uma realidade sequestrada pelo sofrimento. Sendo condição, também, para enfrentar esses processos promotores da dor. A busca de superação, e um objetivo assumido no sentido de que não voltem a acontecer. Para tanto, é necessário lembrar, ter presente o que se passou. Portanto, o momento da pandemia da covid-19 requer que se cuide, também, dos ‘lugares da memória’. Para que a consciência, como expressão da memória coletiva, afaste o risco de o futuro ser capturado pelos equívocos do passado.
Ivonaldo Leite
|