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A pandemia tornou evidentes e manifestas as assimetrias sociais, económicas e culturais pré-existentes, que se agudizaram para quem já vivia no limiar do risco ou da exclusão. No entanto, as pandemias também constituem oportunidades para os sistemas educativos se fortalecerem.
No período pandémico que atravessamos, pessoas, instituições e comunidades são testadas ao limite na sua capacidade para lidarem com a vulnerabilidade, a adversidade e o risco. Enquanto se gere a incerteza do presente, mesmo já sob o efeito das vacinas, começam a ser conhecidos estudos nacionais e internacionais que medem o impacto multidimensional que a atual crise tem sobre a instituição Escola, particularmente sobre crianças/jovens e as suas famílias, bem como sobre os docentes e as lideranças escolares. Nestes, é dada especial atenção às consequências que as medidas iniciais de confinamento, tomadas para proteger a comunidade escolar, tiveram sobre os alunos em termos de evolução das aprendizagens, ressonância emocional, relacional e motivacional, assim como os múltiplos efeitos gerados pela precarização económica das suas famílias. Neste âmbito, e não menos importante, já são conhecidos resultados que medem igualmente o desempenho docente na brusca adaptação a que a classe profissional foi sujeita, destacando-se, neste aspeto, a eficácia das estratégias de ensino por meios tecnológicos adotadas e os fenómenos associados ao burnout. A nível global, podem identificar-se quatro tendências emergentes na Educação pós-pandemia: - o acentuar das desigualdades onde antes já eram relevantes; - a centralidade da inovação no seio do sistema educativo, antecipando mudanças no ensino e formação; - a emergência de um consenso sobre a importância social da escola legitimando a afetação de maiores recursos públicos; - a criação de alianças com novos atores comunitários que impulsionaram as aprendizagens das crianças. [Beyond reopening schools: how education can emerge stronger than before COVID-19 – relatório de Emiliana Vegas & Rebecca Winthrop, 08.09.2020] Pode afirmar-se, por isso, que a instituição Escola e, com ela, o papel docente podem vir a sair desta pandemia fortalecidos na sua estima social, tendo o sistema educativo reconquistado uminestimável valor de bem público, a par do sistema de saúde.
Absorver. Adaptar. Transformar. É de bom senso aceitar que a pandemia não criou per si situações injustas; apenas tornou evidentes e manifestas as assimetrias sociais, económicas e culturais pré-existentes e que, no atual contexto, se agudizaram para aqueles que já viviam no limiar do risco ou da exclusão. No entanto, as pandemias também constituem oportunidades para os sistemas educativos se fortalecerem quando antecipam riscos e desempenham um papel protetor e promotor da “segurança, da resiliência e da coesão social...” [Declaração de Incheon e Marco de Ação para a implementação do ODS 4]. No atual contexto, a resiliência escolar tem vindo a desempenhar um papel decisivo para as crianças, famílias e comunidades, na medida em que resulta de processos multifacetados de superação de obstáculos nos quais atores e estruturas se envolveram para obter resultados melhores do que o esperado frente ou após as adversidades [Adrian Van Breda, A critical review of resilience theory and its relevance for social work, 2018]. Isto acontece por via da colaboração multilateral em que ações e planos de contingência, estruturas de gestão, redes e parcerias, atores e recursos, em conjunto, conseguem desenvolver três capacidades interligadas: absorção (prevenir e mitigar impactos negativos), adaptação (ajustar e identificar oportunidades) e transformação (habilidade para recriar novas formas de viver). Na perspetiva dos direitos das crianças, especialmente as mais vulneráveis, a experiência da UNICEF (2014) evidencia que os sistemas educativos mais resilientes têm sido aqueles em que se manifesta a capacidade das crianças, das comunidades e dos sistemas para antecipar, prevenir, suportar, adaptar e recuperar de stresses e choques. No contexto da pandemia, e segundo a UNESCO [Education in a post COVID world: Nine ideas for public action, 2020], os sistemas educativos mais resilientes têm sido os que estiveram mais envolvidos com as famílias e comunidades.
José Luís Gonçalves
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