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As autoridades sugerem a posse das respostas para os problemas enfrentados. Sugerem mesmo que a alternativa seria baixar o aplicativo correto, já que muitos têm acesso a telefones móveis. E viva qualquer movimento da chamada inclusão digital!
No contexto brasileiro durante a pandemia, entre o ensino remoto emergencial e propostas de ensino híbrido, o trabalho docente esvaziado ecoa nas vozes das professoras e dos professores que não abrem mão da postura crítica. Duas delas estão presentes aqui, sem se submeterem às plataformas cada vez mais gigantes, com sua suposta filantropia. Para além da designação ‘big five’ ou do acrônimo GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon, Microsoft), o seu dizer denuncia muitas invisibilidades. Uma delas está presente na Revistapontocom, publicada em 29.07.2020. É Márcia Friggi, abordando a invisibilidade do magistério brasileiro no delicado processo de retorno às aulas presenciais durante a pandemia. Nas suas palavras: “Fomos pegos de surpresa, como todos. A maioria de nós nunca estudou para dar aulas à distância. Aprendemos na marra, no susto. Nossa casa se transformou em estúdio. Nosso celular em instrumento de trabalho e voz para dez turmas, cerca de quatrocentos alunos e mais seus pais (no meu caso). Em tempos de aulas presenciais, meu celular estava sempre no silencioso para não perturbar, agora também porque muitos alunos e pais não respeitam dia nem horário. Trabalhamos em duas plataformas e quatro frentes: Classroom, WhatsApp, diário on-line e material impresso. (...) Não há como dar conta de aulas presenciais e à distância ao mesmo tempo, se for assim, os que não morrerem de covid-19, vão morrer de exaustão. Ainda tem as lives, quase todo dia, para que os professores escutem, escutem, escutem. (...) Mais que ouvir, necessitamos também falar e, acima de tudo, precisamos ser ouvidos!”
Invisibilidades. A outra não terá seu nome declinado aqui, já que seu texto foi uma comunicação pessoal na forma de e-mail-desabafo. Veio de uma ex orientanda, encaminhado em uma madrugada de agosto de 2020, sem que eu tivesse solicitado a devida autorização para publicar: “Estou vivendo o caos da secretaria de educação do RJ no meio dessa pandemia e tendo que fazer cursos completamente fora da realidade dos meus alunos do morro XXX me deu uma profunda saudade dos nossos encontros no grupo de pesquisa. Nesse momento estou fazendo um curso para utilização de um aplicativo (Flip grid). Meu aluno precisaria ter celular, internet, conta de email na Microsoft ou Gmail. Tenho um aluno que mora em um barraco. É angustiante. A invisibilidade dos alunos das comunidades cariocas é de chorar.” Invisíveis são as professoras e as comunidades. As autoridades sugerem a posse das respostas para os problemas enfrentados. Sugerem mesmo que a alternativa seria baixar o aplicativo correto, já que muitos têm acesso a telefones móveis. E viva qualquer movimento da chamada inclusão digital! Invisibilizados são os traços concretos das desigualdades sociais. Não há como padronizar, especialmente o conjunto das iniciativas de substituir o ensino presencial. Para o coletivo dos professores, parece que a pergunta que não quer calar é: “você já baixou o aplicativo?”
Raquel Goulart Barreto
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