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O valor dos professores

Há duas questões que é necessário resolver: os professores estão desgastados, uma percentagem enorme tem mais de 60 anos e muitos não estão em condições ideais para lidarem com crianças e jovens; por outro lado, começam a faltar professores e a sua formação tem de ser revista e melhorada.

Este imbróglio de termos de conjugar as inovações pedagógicas tão necessárias à Escola com cada vez mais pedidos de sacrifícios aos professores dá que pensar. E põe-nos a refletir quando tomamos consciência de que esta situação surge indelevelmente numa fase adiantada de governos do Partido Socialista. Já passámos por isto, estamos cansados e o tempo de pandemia, em que os docentes garantiram o funcionamento da Educação, não ajuda a uma boa recetividade de certas medidas.
A valorização do trabalho e da carreira dos professores é inversamente proporcional à quantidade de trabalho que lhes é atribuído. A primeira diminui e a segunda aumenta. Vejamos:
- o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) refere, para a Educação, a questão da Escola Digital. O relatório PISA veio confirmar o que constatámos, antes e depois da pandemia: há alunos que não têm condições mínimas para poderem ter um bom acesso ao mundo informático – acrescentarei, ou à cultura ou, em síntese, à educação;
- a Escola Digital, indispensável para a inserção no mundo atual, implica, além da modernização do sistema escolar português – quanto tempo esperamos para que um computador abra para podermos escrever um sumário? quantas vezes ficamos sem net a meio de uma aula? –, um sentido global da necessidade de uma verdadeira inovação a nível educativo e em termos pedagógicos, como é, em parte, referido no texto do PRR;
- a OCDE concluiu que a ausência de equidade nas escolas portuguesas (existência real de exclusão) se prende com a inexistência de computadores para os alunos – não ignoro o esforço realizado pelo governo português para colmatar essas diferenças durante a pandemia, mas os professores sabem dos alunos que ‘ficaram pelo caminho’, que não realizaram aprendizagens essenciais ou que desistiram mesmo; estamos longe dessa função da escola pública (e da sociedade) que reduzirá desigualdades.

Desgaste e formação. Quem dá a cara pelas questões pedagógicas, no Ministério da Educação, é o Secretário de Estado João Costa. E fá-lo bem, seja na tentativa de implementar cuidadosamente o decreto-lei 55/2018 (Gestão Autónoma e Flexível do Currículo), seja na concretização de medidas educativas que contribuam para a tão necessária transformação dos processos de aprendizagem (aliando-se a experientes cientistas da Educação com diversos projetos de formação de professores no terreno), seja, ainda, incitando à organização rápida de planos que enfrentem as consequências da pandemia.
Nas escolas, os professores trocaram horários em função do combate à pandemia; apoiaram alunos on-line, por telefone, por SMS, a qualquer hora – nas aprendizagens, nas crises familiares, nos problemas da afetividade próprios da idade, nas questões pessoais, na impotência que todos sentimos; num ápice, formaram-se informaticamente, para que todos emergissem; reuniram com os seus pares às 19h30, depois das aulas; jantaram tarde; não acompanharam as suas famílias; não dormiram sossegados para resolverem dilemas da escola.
Estes professores veem cada vez mais desvalorizada a sua profissão. Há duas questões que é necessário serem resolvidas pelo Ministério da Educação e pelo Governo, sob pena de poderem vir a ser acusados de destruírem a Educação em Portugal (já o disse e reafirmo): os professores estão desgastados, uma percentagem enorme tem mais de 60 anos e muitos não estão em condições ideais para lidarem com crianças e jovens; começam a faltar professores e a sua formação tem de ser revista e melhorada.

Qualidade vs quantidade. A profissão de professor é de desgaste, intelectual e físico, principalmente, quanto mais novos são os alunos; foi, sobretudo, no século XXI que em Portugal se começou a pensar que os professores são uma espécie de operários que entram às sete e saem às treze (uma mentira que põe em causa o futuro do país); os professores têm de se sentir felizes no que gostam de fazer, para ‘criarem’ crianças e jovens confiantes; se já não auferem grandes vencimentos, pelo menos que sejam reconhecidos pelo seu ministro – que apoiei no início, quando toda a gente dizia que não percebia nada de escolas e era um novato que vinha da investigação e do aparelho do partido, mas tenho agora que dar a mão à palmatória...
Se o Ministério da Educação percebesse alguma coisa de Escolas (e de vida) saberia que a quantidade não interessa, ou seja, que não é por haver mais aulas que os alunos aprendem mais. O que gera boas aprendizagens é a qualidade dos processos de ensino-aprendizagem. Houve aprendizagens essenciais que não foram abordadas? Há que recuperar. Com diferentes estratégias. Com reforço de professores, com turmas mais pequenas, com outros técnicos.
Não é estranho que a única estratégia que o Ministério da Educação encontrou seja diminuir aos tempos de interrupção do Natal e da Páscoa no calendário do próximo ano letivo? Que fraco, senhor ministro! Esses tempos são para reuniões de avaliação e para que professores e alunos possam restabelecer-se e preparar os períodos seguintes! E os alunos? Também precisam! Até parece que querem mesmo transformar as escolas em fábricas, lembrando a tão velha imagem taylorista do ‘entra porco, sai salsicha’.

Rafael Tormenta


  
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