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O sobreiro que há em cada bolota

Analisar o impacto que o tipo de conhecimento veiculado pelas redes sociais tem na Educação continua a ser um tema em aberto: como conciliar o modelo e os valores veiculados pelas redes sociais com os valores que consideramos fundamentais para a Educação?

Fez recentemente 20 anos que Manuel Castells publicou «The Internet Galaxy, Reflections on the Internet, Business and Society» (Oxford University Press, 2001). O sociólogo espanhol intuiu que a forma como o conhecimento se ia desenvolver e expandir através da internet era em forma de uma rede, de uma tessitura em que os nós que ligavam a trama não se organizavam de forma hierárquica, mas numa extensa e infindável superfície plana de ‘nós’ – nós de corda e nós de nós.
Hoje estamos a viver a plenitude do que em 2001 parecia uma arrojada profecia. Esta rede não hierárquica triunfou pela sua expansão e penetração em todas as áreas da sociedade, mas não se conformou com esta linearidade e com a lhanura do seu modelo. As redes, que pareciam tudo aceitar na sua linearidade não hierárquica, mostram-se ávidas por identificar e amplificar quem tem razão e quem não tem, o que é mais e menos, o que é mais alto, mais baixo, mais pequeno, maior, quem gasta mais e quem gasta menos. Talvez se tenha transplantado uma hierarquia do poder de quem diz para a obsessiva procura daquilo que mais se destaca da infinita planície da informação.
Daqui que talvez estejamos a perder a atenção, o carinho, o incentivo por aquilo que é rotineiro e usual. Talvez vejamos cada vez menos e pior o que se pensa e o que se faz com brio, com compromisso e com generosidade longe dos holofotes. E vemos menos e pior porque a nossa forma de comunicação mais amplificada (redes sociais) está calibrada para o ‘extraordinário’. Há muito que as redes sociais – e por arrasto a comunicação social – perderam o interesse pelo que é quotidiano, e até pelo que é positivo. Conta-se a história de um rei que não deixou que o seu poeta favorito se casasse com a mulher que amava para ele não perder a inspiração. Dizia ele que “poetas felizes não fazem bons versos”... O social (nas redes e na comunicação) está também tomado por valores justiceiros e de julgamento que valorizam o que é extraordinário, sobretudo se este extraordinário evidenciar o que é escandaloso e ‘vergonhoso’. Estes valores têm um forte impacto na Educação, sobretudo porque a Educação é um processo, um caminho continuado, em que pequenas coisas (conhecimentos, sentimentos, relações, epifanias...) se vão entretecendo. Urie Bronfenbrenner já nos tinha alertado para a importância que o tempo tem para o desenvolvimento das crianças.

Tempo e valores. Para que a experiência e a Educação possam ter impacto e significado no desenvolvimento humano é preciso tempo. Sem tempo não há dinâmica, não há complexidade... Haveria só um rápido desfile de estímulos em que a criança e o jovem são meros espectadores. Precisamos de tempo para criar complexidade.
Quando se fala (e tanto e bem agora se fala) nesta revolução das redes sociais em que estamos a viajar, talvez não possamos (devamos) esquecer o valor que o tempo tem, que têm os processos, que tem um caminho sem ambição de recordes e sem highlights sociais; um caminho que tem a coragem de ser positivo. Sim, porque na situação que vivemos, é preciso muita coragem para analisar o que se passa no mundo com valores, com uma hierarquia de valores – analisar factos sem valores, como se os factos se fossem somando numa infindável rede, é imaginar um mundo em que nada mais existisse do que uma planície. Analisar o impacto que o tipo de conhecimento veiculado pelas redes sociais tem na Educação continua a ser um tema em aberto. Para as pessoas que se queixam que tudo está a andar muito depressa (entre as quais me incluo...), gosto de as confortar dizendo que as coisas nunca andarão tão devagar como agora. Mas... a Educação? Como conciliar o modelo e os valores veiculados pelas redes sociais com os valores do que – pelo menos até agora – consideramos fundamental para a Educação? O tempo, o espírito crítico, o respeito pelos direitos de cada um, o olhar a realidade para a fazer melhor e não para encontrar recordes ou a submeter a um criticismo pobre de valores explícitos. É certamente um desafio para cada um de nós: como continuar este diálogo entre as condições de que, acreditamos, a Educação precisa e a premência, a velocidade, o imediatismo, a girândola de informação do admirável mundo novo das redes sociais.
Ver o sobreiro que há dentro da bolota: uma semente que precisa de tempo, que precisa de solo fértil, que precisa de crescer com respeito e sem a angústia de ser maior ou menor que os outros.
E precisa de sol: nenhuma bolota brota se não houver sol.

David Rodrigues


  
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