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O manual, a ação dos professores que debitam e debitam, a memorização de conteúdos, muitos para esquecer, e a doentia obsessão pela avaliação, não são, seguramente, o melhor caminho. A Escola tem de ser vista pelo ângulo da cultura.
A pandemia da covid-19 trouxe inúmeros dilemas para os processos educativos, mas também tem oportunizado diversos debates acerca da educação, propiciando o surgimento de soluções, antes nem mesmo pensadas. Diante da ausência da vacina, o isolamento social se fez a única medida eficaz para a contenção da pandemia, provocando o fechamento físico de escolas e universidades. Sendo assim, docentes e discentes se viram em situações inusitadas frente à necessidade de como continuar ‘aprenderensinar’*. Trabalhamos com a ideia de que os currículos são criação cotidiana. Assim, percebemos que se, por um lado, a pandemia provocou uma barreira física, por outro, notamos as diversas criações de docentes e discentes em todo esse período, a partir de usos dos inúmeros artefatos digitais com os quais precisaram trabalhar. Isso ocorreu do ensino fundamental ao ensino superior e vamos trazer um artefato criado pelo grupo de pesquisa a que pertencemos (Currículos cotidianos: redes educativas, imagens e sons). Utilizamos o online como ‘espaçostempos’ de criação de ‘conhecimentossignificações’, nos quais os cotidianos se mostram cheios de oportunidades de ‘aprenderensinar’. Nessa perspectiva, frente à percepção de que o acesso a Internet, no Brasil, excluía colegas e dificultava sua comunicação e possibilidades de ‘aprenderensinar’, decidimos criar um podcast que, pelo uso exclusivo do som, possibilitaria um maior número de acesso, facilitando-o, porque não usa imagens. A esse podcast demos o título de “Cotidianos e Currículos” e os programas nele incluídos foram colocados em plataformas de streaming, como Spotify e Deezer. Nós lhe demos uma estrutura simples: uma crônica, sob diversas formas, e uma entrevista com algum pesquisador ou pesquisadora da área, incorporando vinhetas com falas explicativas e músicas. Organizamos os programas em séries mensais assim desenvolvidas: educação e sons (agosto); educação e imagens (setembro); sentidos e sentimentos (outubro); educação e pandemia (novembro); criar conhecimentos na pandemia (dezembro).
Ir além do olhar. Tanto as crônicas quanto as entrevistas, trazendo interrogações aos currículos cotidianos, permitiram que conhecêssemos e compreendêssemos inúmeras soluções encontradas por docentes e discentes para se comunicarem. Assim, por exemplo, na série 4, no seu 3.º programa, o professor José Guilherme Gonzaga, da Unipampa/RS, conta que um docente, que começaria a dar aula neste ano de 2020, por conta da pandemia, começou a enviar cartas para se apresentar e conhecer seus alunos. Trata-se de um gesto simples, mas capaz de criar afetos e transpor as barreiras físicas. Importa-nos, portanto, contemplar o que é vivido nas redes educativas que formamos e nas quais somos formados, além de analisar as experiências constituídas de emoções, sentidos, afetos, histórias e saberes por meio das narrativas. Para tal, é fundamental estarmos atentos, no enfrentamento da pandemia, às possibilidades de criar inúmeras redes de contato para superarmos o distanciamento físico a que nos submeteu. Ir além do olhar – sentido hegemônico desde a Modernidade – exige que criemos possibilidades de uso de todos os sentidos, seja a audição, o tato, o olfato e o paladar, em uma postura epistemológica outra, de modo que possamos sentir o que de fato se passa nos cotidianos dessas redes educativas nas quais mergulhamos. Essa, no entanto, não é uma questão somente em tempos de pandemia, já que ao deixarmos nossas emoções de lado, os antolhos nos impedem de sentirmos, de afetarmos e sermos afetados pelo outro. Por isso, fomos movidos a criar meios outros de comunicação que fugissem do uso do olhar hegemônico, permitindo contatos que mobilizassem outros sentidos – a audição, no caso do podcast [https://anchor.fm/labeduimagem]. Com isso, trazemos o convite para que nosso leitor passe a ser nosso ouvinte. Vocês vão gostar!
Izadora Agueda, Juliana Rodrigues, Michelle Trancoso
Laboratório Educação e Imagem, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Brasil)
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