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Real e imaginário vão compor o despertar da curiosidade, a aquisição de novas ideias, o enriquecimento do vocabulário, o pensar reflexivo e a expansão e expressão de sentimentos através do fazer poético.
O texto poético é um espaço de grande riqueza e amplitude, capaz de permitir a liberação do imaginário e do sonho das pessoas. No entanto, existe certo preconceito em relação à poesia, baseado no senso comum, e que permeia a família, os grupos sociais e a própria escola. Alguns acreditam que mexer com a poesia é perda de tempo. Outros, por não perceberem o poder de encantamento dos poemas e por não disporem de condições mínimas de análise – que lhes permitam estudar e entender essa matéria-prima tão especial e que se configura por um refinadíssimo trabalho com as palavras –, preferem fugir do poema. Não se pode abrir mão daquele que é o grande tesouro do dizer poético: a infância, com os seus sons e os seus sentidos, com os seus enigmas e mistérios, com os seus medos e inquietações, que são de hoje e de todos os tempos. Vivemos em sociedades em que a programação televisiva e da internet já é calculada em função do público infantil, dos seus desejos e sonhos, apostando naquilo que é de consumo fácil e imediato, não obrigando a pensar, a imaginar e a problematizar. As crianças chegam à escola com milhares de horas de televisão e internet já assimiladas, sabendo-se que a parte mais substancial dessa programação se caracteriza pela violência das imagens e das bandas sonoras. A poesia continua a ser, tanto para as crianças como para os adultos, a linguagem natural dos ‘ses’ e dos ‘porquês’, a linguagem da interrogação desafiadora e da dúvida inquiridora, que não se rende à hegemonia da máquina, ao império da técnica e à lógica devastadora do lucro, que conduz ao sistemático, e hoje verdadeiramente obsceno, esmagamento do ‘ser’ pelo ‘ter’. Nesta luta, conquista-se um espaço para a poesia na escola, em casa e na sociedade, para que as crianças possam perceber a sua relação com o mundo, com a linguagem, com a memória e com o que é verdadeiramente estruturante e definitivo na sua identidade. Muitos poetas, como Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Mário Quintana, Fernando Pessoa e José Carlos Paes, escreveram poesias para os alunos. De modo geral, apesar disso, a poesia continua não sendo bem tratada nas escolas em razão de preconceitos e distorções já citados. Além disso, o professor nem sempre está preparado para realizar um trabalho com poemas, a partir de características e critérios próprios desses textos.
O encanto da poesia. Em geral, a poesia se dá a conhecer na escola, permitindo às crianças e adolescentes, bem como aos professores, sintonizar-se com a linguagem literária. Além disso, desafiam-se os alunos para o exercício de alguns procedimentos de um leitor que se vem letrando gradativamente, aquele que levanta hipóteses, interroga o texto e se interroga, mobilizando estratégias para melhor compreender, sentir e dizer o texto poético. Trabalhar com a produção escrita de poemas, possibilita aos alunos mais uma alternativa para a escrita espontânea, a qual poderá romper com certos mecanismos estereotipados da escrita e revelar que é possível combinar formas de expressão e conteúdo. A familiaridade com textos poéticos de forma divertida e significativa leva os alunos a perceberem o encanto da poesia. Não sendo esta mais do que uma brincadeira com as palavras, onde cada palavra pode e deve significar mais de uma coisa ao mesmo tempo. Quando crianças e jovens iniciam a escrita criativa, o processo alquímico se desencadeia, de forma luminosa e imparável, à medida que os mesmos conseguem verbalizar de forma poética sentimentos, sensações, medos e anseios que povoam o seu quotidiano. Ao fazerem essa descoberta, tornam-se verdadeiros iniciados nessa arte mágica de dar às palavras sentidos e significados que o nosso falar comum segrega e marginaliza. A poesia contribui para explorar o real e o imaginário, permitindo transformações no real, modificando-o. Na construção do poema, o aluno explora esses dois ícones do fazer poético, desde que sejam criadas condições favoráveis para que as formas poéticas possam se concretizar. Contudo, o real e o imaginário vão compor o despertar da curiosidade, a aquisição de novas ideias, o enriquecimento do vocabulário, o pensar reflexivo e a expansão e expressão de sentimentos através do fazer poético.
José Miguel Lopes
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