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A existência na (auto)narração: intermitências da memória

No clássico da literatura latino-americana "Cem Anos de Solidão", universalizado pela pena de Gabriel García Márquez, logo à partida, encontramos um realce que expressa a dimensão narrável que nos constitui.

Lemos que, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de pau a pique e telhados de sapé construídas à beira de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome, e para mencioná-las era preciso apontar com o dedo.
A história narrada por García Márquez é uma espécie de compêndio de alegrias, tragédias, lembranças e ilusões da família Buendía na ficcional Macondo, expressão simbólica da América Latina. Tenhamos em conta, por exemplo, o que se passava com José Arcadio Buendía. Durante o dia, caindo de sono, gozava em segredo com as recordações da noite anterior. Contudo, quando Pilar Ternera chegava a casa, alegre, indiferente, falando muito, ele não tinha como dissimular sua tensão, pois aquela mulher, cujo riso explosivo espantava pombos, não parecia ter nada a ver com o poder invisível que o ensinava a respirar para dentro e a controlar os golpes do coração.

O tempo humano. Sendo algo como uma interação entre a conservação e o esquecimento, a memória atribui à narrativa um caráter seletivo, retendo o que lhe marca (seja em que sentido for), é afetivo ou lhe desperta interesse. Não necessariamente obedece a um tempo cronológico, e assim factos e personagens são situados numa dimensão temporal de vivência própria. É como se fosse construído um microcosmo impenetrável, onde o que acontece incide sobre uma temporalidade regida pela calendarização que norteia a vida desse microcosmo. Os movimentos no interior do universo da memória não são, no entanto, uma mera repetição. Eles são, antes, movimentos elípticos, nos quais os acontecimentos regressam sempre, contudo, tomados por elementos que os diferenciam dos anteriores, sendo isto, de resto, próprio da manifestação do transcorrer do tempo da história. Em verdade, nos termos de Paul Ricouer, o caráter temporal da experiência humana é o que está em jogo no devém da memória e nas pretensões referenciais das narrativas, ou seja, o tempo torna-se tempo humano na medida em que é articulado de modo narrativo com os relatos, adquirindo sentido ao se tornarem condições da existência temporal.

A identidade presumida no ato de narrar encontra-se assente sobre a capacidade do relato de projetar um mundo narrativo, considerando ainda que essa capacidade é fundada, por sua vez, sobre a correlação primordial entre narratividade e temporalidade. Memórias. Elas são como rastros, pegadas que nos seguem e nós a elas, constituindo uma espécie de mecanismo pelo qual se detecta a passagem de coisas que não se pode ver, mas que existem em uma dada categoria de tempo/espaço. Efeito-signo, coisa presente que vale por algo do passado. A existência própria que cada um narra, por vezes, de modo parcialmente indireto aos outros e, de forma mais desvelada perante o espelho interno, a si mesmo.
De modo parcialmente indireto aos outros porque, lembrando Júlio Dinis em Uma Família Inglesa, há partes ocultas no mundo interior das pessoas onde se refugiam factos que a linguagem narra as suas fronteiras, escondendo-os. Ao serem avistados, logo se procura fazer com que o pensamento deambule por outras paragens. Passa-se assim pois há perfumes tão sutis que, uma vez abertos os seus vasos, eles logo se dissipam inebriando o ambiente imprevisivelmente. Daí Dinis recomendar: guarde cada um para si essa parte do pensamento que não pode separar-se de nós sem que nós próprios a desconheçamos.

Prenúncio do crepúsculo. Por fim, e encerrando com a lembrança inicial de Cem Anos de Solidão, é de se dizer que o esgotamento dos ciclos elípticos da memória prenuncia o crepúsculo.
O coronel Aureliano Buendía sobreviveu a 32 guerras vazias e perdidas, tentativas de assassinato, à tristeza da caça aos seus filhos e à morte prematura de sua esposa, mas não conseguiu sobreviver à nostalgia das boas memórias de sua infância que levaram lume a seu vazio: ia para o pátio quando ouviu os clarins distantes, os canhões do bumbo e o júbilo das crianças e, pela primeira vez desde a sua juventude, pisou conscientemente numa armadilha da nostalgia e reviveu a prodigiosa tarde de ciganos em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Viu a face de uma solidão miserável e mortal quando tudo acabou de passar. Tentou pensar no circo, mas não encontrou mais a lembrança.

Ivonaldo Leite


  
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