|
O desequilíbrio de poder toma rosto sempre que os cidadãos interpelam a administração pública e da justiça, ou os balcões das empresas, para a resolução de questões pessoais e se confrontam com a argumentação sustentada na burocracia, ou no monopólio, que configura abuso de autoridade.
Na atividade económica, toda ela regulada na convivência dos cidadãos conforme a lei, os registos, os códigos, a boa conduta, há espaço para a infração que justifica a normativa omnipresente e a aplicação da justiça. É tentador o pecado. As relações interpessoais não constituem o âmago da governação, privilegiadas as institucionais que resultam da democracia, e os vícios da sociedade devem ser escrutinados como resultado da má convivência social entre instituições. A livre concorrência nos mercados gera pirâmide financeira, conflito de interesses e o desperdício de recursos e dos bens produzidos, enquanto a economia global tem uma mão cheia de empresas e fundos que gerem os mercados e a política. A desigualdade social, intra ou entre culturas e comunidades, fala per se quando a ciência é chamada a intervir em nome da saúde global, uma desigualdade herdada da defesa e construção de um capitalismo sem visão de futuro da parte daqueles que o controlaram. As fábricas estão concentradas na produção do inútil que depende dos recursos naturais, sem freio, e a maioria dos operários sobrevive na incerteza da emergência climática por intervenção humana. A lógica dos grandes armazéns onde tudo se compra, e tudo se paga, é arcaica na acepção de gasta. Não há lógica que resista quando defende o investimento no prejuízo. Neste cenário, os poderes eleitos têm uma noção da rede até onde podem conhecer, no particular da rede bancária, bolsista e tributária que a economia empresarial sustenta, e da fragilidade dos seus cargos que daí decorre.
Desequilíbrio de poder. Será uma caricatura dizer que a regulação da vida pessoal é a inversa da regulação dos mercados, como forma de ilustrar a dependência de uma da outra no desequilíbrio de poder. A questão latente é do papel das democracias que constroem nichos partidários, conflitos, estagnadas e sem ideias, com supremacia do legislativo sobre o executivo, sem espaços para a criatividade, para o senso da coisa de interesse comum, para a prática de um direito natural. O inimigo das utopias será afirmarem-se como tal, e apenas nessa condição. Aquele desequilíbrio de poder toma rosto sempre que os cidadãos interpelam a administração pública e da justiça, ou os balcões das empresas, para a resolução de questões pessoais e se confrontam com a argumentação sustentada na burocracia, ou no monopólio, que configura abuso de autoridade. Uma das consequências desta não relação entre as partes é a demissão da defesa dos direitos individuais, consagrados na lei, por parte da pessoa singular. Quando o coletivo recorre deste divórcio e se organiza de forma a fazer-se representar nos fóruns próprios, a defesa dos interesses das partes emerge na qualidade de negociação, em desequilíbrio sempre que uma delas detém a faculdade de legislar, de romper o contrato ou de controlar a aplicação da justiça, das finanças e da autoridade policial.
Debate inquinado. O debate das questões fundamentais da humanidade, das sociedades, das comunidades, faça-se ou não em liberdade, está inquinado pela premissa de que o progresso se faz à custa de um modelo industrial impossível de desmantelar, apenas adaptável e reconvertível, ignorando relações interculturais, novas estruturas governativas, justiça na distribuição da riqueza. É óbvio que o obstáculo à construção de uma outra realidade, ou de um caminho possível para tanto, será a perpetuação dos níveis de consumo e da sua natureza, sobretudo aquele que recorre da depauperação de recursos em territórios por si já socialmente castigados, consumo geminado com a exploração do trabalho no geral. Um olhar isento sobre o palco dos poderes constituídos leva-nos a concluir que serão, de forma deliberada ou não, cúmplices nos silêncios acerca de políticas para todo um século XXI, sejam na indústria, na agricultura, na saúde, na educação, na ciência. E ao falarmos de paz convém dizer que não são os soldados quem declara as guerras, ou as promove. As fábricas de carimbos estão em todo lado, garantem que possamos atestar a nossa conformidade com as boas práticas e as ideias inócuas.
Luís Vendeirinho
|