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Inevitavelmente, abordámos o estado da saúde da nação. E não só deste Estado-nação, agora que a população mundial esconde literalmente parte da cara, sem saber já se para proteger o outro ou para se proteger a si próprio.
— Desculpe a demora – dizia, num Português que não me era claro, abafado pela máscara que integra atualmente o casual dress code. Depois de, a minha insistência, ter repetido três vezes a frase de abertura, respondi-lhe que não me apercebi da demora. Tinha tido tempo para me despedir sem pressas e a noite de verão de São Martinho estava agradável, convidando a meditar, olhando para as árvores a mudar de cor. Repeti, também eu, duas vezes a minha resposta. Constatámos que ambos éramos o que se pode designar como ‘estrangeiros’. Com uma diferença em relação ao idioma – o Português de língua materna endógeno que utilizava tinha só uma sonoridade difícil para quem pratica uma variante exógena com sabor a neerlandês. Entendi que migrou do Brasil há pouco tempo. Entendeu que migrei de outro país europeu há muito tempo. Descobrimos também ter em comum a área de conhecimento na qual nos aprofundámos. Ele fê-lo no país de origem; eu, mais no país de chegada. Isso influenciou a respetiva atividade profissional. Na União Europeia de hoje, a livre circulação dos europeus não significa a livre circulação das suas competências creditadas. Contrariamente ao otimismo inicial, nem Bolonha consegue pôr termo à burocracia da certificação daquilo que já foi certificado. Muitos europeus que tiveram a ousadia de fracionar estudos por vários países europeus têm histórias para contar...
Não é o meu caso. Não sendo português genuíno, os carimbos nos meus certificados de Ensino Superior são, esses sim, bem portugueses. Dificultar-me-ia a vida caso os fizesse valer no meu pais de origem, mas como estou onde estudei, o papel confirma que sei aquilo que digo saber – mesmo se tenho regularmente dúvidas acerca daquilo que sei. Para quem vem do outro lado do Atlântico, o circuito dos papéis é bem mais infernal. No caso do meu interlocutor, a dúvida acerca daquilo que ele sabe é institucional. E mesmo se, por hipótese, se verificasse a sua competência numa situação de trabalho, a dúvida é soberana. Enquanto os carimbos não são portugueses, o papel carimbado que ele traz só serve para dar entrada no circuito da certificação. Logo, guia e leva pessoas pelos seus percursos escolhidos, não como pedagogo ou antropólogo, mas como motorista requisitado através de uma plataforma digital. Inevitavelmente, abordámos o estado da saúde da nação. E não só deste Estado-nação, agora que, gradualmente, a população mundial esconde literalmente parte da cara, sem saber já se para proteger o outro ou para se proteger a si próprio. Um gesto empático e de bom senso, de fácil entendimento quando fruto de uma aprendizagem dialogada, transformou-se em coercivamente ensinado, menos bem entendido, logo, objeto de teorias de conspiração, originando atitudes que levam a novas regras restritivas.
No resto do percurso até ao meu destino, falámos da instituição de regras face à pandemia, regras que originaram outro aspeto em comum: a impossibilidade de visitar a mãe doente com a frequência desejada. Viagens incertas, acrescidas das necessárias quarentenas, tornam impossível curtas estadias planeadas com visitas a quem está num lar. Drásticas regras de proteção, que transformaram muitos lares em prisões de alta segurança, confrontaram-nos com a mesma inevitabilidade: perdemos o ano em que ainda teria sido possível vermos a mãe de mente presente. Contava-lhe que ainda há poucos meses, na conversa telefónica diária, a minha mãe comparava a situação atual com aquela que viveu em criança, durante a guerra de 40-45 – as regras impostas não lhe permitiram visitar os avós. Ela não os viu mais em vida. Sei agora que não me reconhecerá se e quando nos virmos de novo.
«A convivencialidade». O meu interlocutor guiou-me para o texto de Ivan Illich, de 1973. Consultei a minha biblioteca e, sim, lá estava o livro há muito esquecido. Valeu reler. É de uma atualidade refrescante este panfleto, às vezes virulento, que também aborda modos de aprendizagem, dificuldades de diálogo e regras instituídas. Que evoca o mundo no qual as pessoas servem a instituição, em vez da instituição servir as pessoas. O mundo onde urge o regresso da convivencialidade.
Pascal Paulus
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