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Prever o futuro para traçar o destino

Quando milionários de países longínquos compram terras e constroem residências em Portugal, para passarem férias ou o resto da vida, os portugueses correm o risco de não poderem traçar o próprio destino.

Começo a escrever este texto no dia em que é noticiado em todos os órgãos da comunicação social o falecimento, com 97 anos de idade, de Eduardo Lourenço, insigne pensador português e ensaísta de reputação mundial, cuja atividade a tempo inteiro, de professor universitário e homem de letras, desenvolvida em Portugal e no estrangeiro, designadamente na França, teve como centro das suas reflexões filosóficas, políticas e literárias uma interrogação – nunca confinada no claustro universitário e sempre transposta para a praça pública – a que deu muitas respostas: o que fora, era e poderia ainda ser Portugal.
Pois é essa interrogação que agora me leva a conjeturar sobre uma pergunta que talvez nenhum aluno do Ensino Secundário, curioso da história do seu país, tenha feito recentemente na sua escola e a que talvez nenhum professor tivesse desejado responder: como será Portugal amanhã?
Algumas décadas atrás, quando o programa escolar incluía uma disciplina de formação moral, cívica e política (à feição do regime vigente), não havia na escola pública lugar para tal pergunta, e menos ainda para a resposta. Os dados precisos para a formação escolar necessária trasbordavam dos discursos proferidos nas tribunas do governo vigente e nos púlpitos da igreja reinante – como abundavam as ervas em qualquer solo afeito à germinação de todas as espécies. Não sendo necessário, para o semeador, escolher terras e sementes com vista à produção desejada, só era indispensável ao putativo consumidor continuar satisfeito com os produtos que eram postos ao seu alcance, fossem eles produzidos no país ou no estrangeiro.

Durante séculos, foi assim que Portugal se contentou em comprar lá fora o que não produzia cá dentro, começando por pagar com oiro e prata do Brasil as vestes de luxo que se fabricavam em países mais desenvolvidos, como a Inglaterra, a França e a Holanda. Mas com a perda do Brasil e os menores recursos das colónias africanas, Portugal, outra vez pobre ou remediado, mas querendo parecer igual aos ricos, continuou a comprar no estrangeiro o que não produzia em casa, incluindo o pão de cada dia.
Por último, face às guerras e crises que foram deflagrando em toda a Europa, ao longo dos tempos, os governantes de Portugal nunca se dispuseram a fazer um balanço sério do que podia e devia ter feito e não fez nos tempos próprios, apesar de não lhe faltarem os conselhos, os ensinamentos e as críticas de conceituados estadistas e homens de muito saber, prestigiados em Portugal e no estrangeiro. Lembremos, por exemplo, as Conferências do Casino Lisbonense, promovidas, nos finais do século XVIII, pelo famoso Grupo dos Cinco (Eça de Queirós, Oliveira Martins, Antero de Figueiredo, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro) e proibidas logo no começo, nas quais, focando as causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos, em confronto com o progresso verificado noutros países da Europa, se defendeu como imperativo básico para modernizar Portugal: estimular a agricultura e a indústria em todo o território nacional; obrigar todas as crianças a frequentarem a escola e franquear o acesso ao ensino superior; confiar a um Estado democrático a gestão dos bens públicos e acreditar que a garantia dos direitos e liberdades fundamentais da Nação e a luta contra as desigualdades sociais só poderiam ser concretizadas com o estabelecimento de uma classe média culta e progressista. Era esta uma aposta esperada da nova geração, por ter recebido das antigas a informação do que já não se deveria repetir.

Aposta ontem, desafio hoje, agora com a responsabilidade acrescida de se enfrentar um futuro que envolverá toda a humanidade, e já não uma ou mais parcelas da mesma, como foi até aqui.
Entre os muitos desafios que o mundo inteiro terá de encarar, expressos em crises de vária ordem (políticas, económicas, climática, sanitárias, etc.), os portugueses terão de se confrontar com um em particular: o que fazer do seu país, onde qualquer povo gostaria de viver, mas cuja população em decréscimo é inferior à de muitas cidades do mundo; a natalidade aponta para 1,5 filhos por mulher em idade fértil; a população ativa é pouco maior do que a reformada; os jovens com formação superior, por falta de emprego compatível, emigram para o estrangeiro; para onde emigram também os operários e camponeses à procura de melhor salário, deixando vagas nas obras e nos campos que são preenchidas por trabalhadores vindos de todas as partes do mundo, fugidos à guerra e à fome, trazendo na bagagem as culturas nacionais que os formataram; em paralelo, as aldeias do interior ficam desertas e as cidades do litoral regurgitam de velhos excedentários e de novos já desanimados, sem esperança de encontrar um lugar adequado às suas habilitações.
Nisto, uma interrogação fica sem resposta: quando milionários de países longínquos compram terras e constroem residências em Portugal, jardim à beira-mar plantado, para passarem as férias ou o resto da vida em reforma, os portugueses, se continuarem parados, à espera de qualquer sorte, neste mundo competitivo e avassalador, onde ninguém pode prever o futuro, correm o risco de não poderem traçar o próprio destino.

Leonel Cosme


  
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