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Atualmente, não são as ciências sociais e da educação que sustentam os alicerces principais da governação educacional, mas a estatística e a nova ciência dos dados, que se aliam para fundamentar a tomada de decisão com objetivos estratégicos a nível global.
A nova ordem educacional emergente resulta de um consenso cosmopolita que evidencia uma profunda transição paradigmática, epistemológica e societal, associada à Quarta Revolução Industrial que vivemos atualmente e se traduz num aglomerado de desenvolvimentos e aplicações tecnológicas recentes: análise de evidências com recurso a big data, computação na nuvem, internet das coisas (IoT), internet dos serviços (IoS), inteligência artificial (IA), sistemas ciber-físicos, a Biotecnologia, a Neurotecnologia, criação de objetos 3D por manufatura aditiva, entre outros. Como é que esta transição societal está a impactar as caraterísticas de sectores educacionais como o da pedagogia-educação social e o da educação e formação de adultos é um debate em curso, que necessita de investigação científico-educacional continuada e crítica. Porém, o impacto nas lógicas de governação educacional da aprendizagem ao longo da vida vem-se revelando cada vez mais consubstanciado, segundo uma linha ideológica de que resulta, desde a Agenda de Lisboa, um estreitamento radical dos pressupostos humanistas que desenhavam as políticas educacionais como um direito social, para ser democraticamente negociado com representantes de atores educacionais nos fora nacionais dos Estados-providência que vigoraram anteriormente. Com efeito, o que hoje se verifica, como corolário da governação global em educação e dos processos de europeização desenvolvidos nas duas décadas decorridas do século XXI, é um distanciamento dessa matriz e a corporização generalizada de um estilo elitista de gestão pública, assente no poder de decisão de uma sobreclasse digitalmente competente. Se o facto de esta lógica operar segundo um andamento vertiginoso não fosse já por si preocupante, bastaria pensar que o leme deste barco tecnologicamente avançado está, quase em absoluto, nas mãos de empreendedores audazes em navegar numa economia financeirizada. Constata-se, assim, que, no universo de recursos humanos que animam esta paisagem, abundam tecnocratas eficazes e eficientes a desenvolver atividades de governação com recurso a coordenação aberta ou redes, bem como analistas especializados capazes de retirar o maior partido tanto dos grandes projectos estatísticos internacionais como dos grandes volumes de dados.
Abrandar para (re)pensar. A decisão educacional poderosa está hoje centrada não tanto nas mãos de atores que vestem fatos cinzentos e gravata, mas em atores envoltos num look casual chic, que são protagonistas de vanguarda na tecnologia de armazenamento e processamento dos dados e que atuam em empresas multinacionais que trabalham com big data, onde está ancorado o monopólio do desenvolvimento destes sistemas, e de que são exemplos a Google, a Yahoo, a Facebook, a Microsoft, a Intel, a Apple, a Cloudera, a Oracle, a IBM, entre outras. São estes os especialistas que integram hoje as elites da ‘sociedade do conhecimento’, que se movimentam em plataformas intergovernamentais, a nível supranacional, com base na adesão a um novo paradigma de política baseada em números e algoritmos; no fundo, uma política para as estatísticas, as métricas e os benchmarking. Ou seja, atualmente, não são as ciências sociais e da educação que sustentam os alicerces principais da governação educacional, mas sim a estatística e a nova ciência dos dados, que se aliam para fundamentar a tomada de decisão com objetivos estratégicos a nível global. A ser efetivamente assim, afigura-se necessário, desde um prisma socioeducacional, procurar um novo andamento que propicie pensar mais disruptivamente acerca da naturalização das tecnologias de informação e comunicação em todas as esferas das vidas quotidianas e dos pressupostos de uma aprendizagem ao longo da vida adepta das vantagens do universo digital para aumentar a participação e a cidadania. Ou seja, a não sermos capazes de desacelerar o atual primado da techne sobre a civitas para um allegro ma non troppo, viveremos coletivamente numa apologia – se não cega, pelo menos míope – que não distingue entre os vários tipos de participação e cidadania ou, pior do que isso, que subjuga todas as possibilidades a um determinado tipo funcional de participação e de cidadania como garantia da coesão e paz social, não obstante a atual agudização das desigualdades e injustiças sociais. E assim caminharemos seduzidos pelos encantos de ‘repertórios espetaculares’ desse não-lugar-atemporal que é o espaço cibernético para uma nova dimensão do risco e da incerteza que já se insinua no horizonte.
Rosanna Barros
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