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O todo em farrapos

Assiste-se a uma apropriação do ‘social’ (objeto de estudo das ciências sociais) por parte de engenheiros, políticos, tecnocratas, etc., de forma abusiva, descontextualizada e banalizada. Ora, um cientista social não arrisca discutir física quântica com um físico...

Como é sabido, o estudo científico implica uma rutura com o senso comum. Uma rutura com os sentidos, com as crenças, e uma submissão à prova científica. Isto ocorre tanto nas ciências da natureza (evitando o conceito de ciências exatas) como nas ciências sociais e humanas.
Contudo, parece que a dita sociedade do conhecimento e da informação fica, muitas vezes, apenas pelo nome/título/conceito. Na prática, vive-se hoje uma obsessão da aplicação social, o que tem levado a que todos os intelectuais, cientistas ou não, falem, em cada frase, de conceitos de natureza social sem os caracterizar e espremer devidamente. Como se fosse líquido que pudessem ser apropriados por todos e para todos, por vezes em nome de ‘coachings’ e outras aplicações pseudocientíficas.
Assiste-se, assim, a uma apropriação do ‘social’ (objeto de estudo das ciências sociais) por parte de engenheiros, políticos, tecnocratas, etc., de forma abusiva, descontextualizada e banalizada.
Ora, um cientista social não arrisca discutir física quântica com um físico. Mas um físico fala, com a maior das facilidades, do ‘social’, como se de uma conversa de café se tratasse, muito embora – cremos – com a convicção de que está a ser cientificamente correto. Mas nessa verborreia confunde-se, tantas vezes, ‘inovação social’ com ‘inovação tecnológica’, ‘mudança social’ com ‘evolução social’; distingue-se ‘empreendedorismo’, uma teologia contemporânea que responsabiliza o indivíduo pelo seu fracas so; de ‘empreendedorismo social’, como se toda a criatividade e inovação não fossem, sempre, sociais... Juntam-se, ainda, nesse jargão as ‘organizações sociais’, o ‘setor social’, de forma rudimentar, como se as organizações não fossem todas sociais, como se toda a economia não fosse social e não apenas a recentemente designada ‘economia social e solidária’.
A sede da aplicabilidade de tudo e de todos ao ‘social’ tem levado, por um lado, à sua verbalização e discussão, mas, por outro lado, a uma banalização enquanto objeto de estudo e dos cientistas sociais que o investigam.

O social tem autonomia própria, é objeto de discussão científica há mais de dois séculos e não deveria ser tão mal tratado e banalizado. Durkheim concebeu o ‘social’ como oposto ao ‘individual’ (projeto de construção de uma ciência social/sociologia diferente da psicologia – o estudo da psique), pelo que o ‘social’ não pode ser explicado pelo individual ou pelo biológico. O social tem/teria de ser explicado pelo ‘social’.
Adérito Sedas Nunes, a propósito da unidade e a pluralidade das ciências sociais, sublinhou bem a dificuldade do caminho, reiterando que “a ciência social só existe por ora em estado fragmentário. Perante a unidade da realidade social, existe de facto uma pluralidade de ciências sociais, cujas interconexões são fracas e largamente sobrelevadas pela sua disjunção.”
Pierre Jaccard, em «Introdução às Ciências Sociais», sublinha bem três dimensões de estudo do ‘social’: como um todo, à Durkheim, exterior ao indivíduo, exercendo coerção sobre este; como organização; e como a vertente da fragilidade social, das franjas sociais (pobreza, exclusão, fome...) que o serviço social muito tem sublinhado.
Ora, as elites também são ‘social’, também são domínio social; não apenas os pobres e os mais excluídos. Não apenas o designado ‘terceiro setor’.
Não bastavam já os cientistas da natureza a adulterar conceitos das ciências sociais – como se cada conceito não tivesse por detrás toneladas de historicidade, concetualização, discussão –, chegam agora, em força, ainda por cima em tempos de incerteza e medo social, muitos trabalhadores sociais a remeterem o seu estudo e implicação apenas para uma parte desse todo social: os mais frágeis e vulneráveis.
É certo que o conhecimento é plural e não se confunde, embora alguns investigadores, mais das ciências duras, o pensem com o conhecimento científico. São coisas distintas: conhecimento(s) e conhecimento(s) científico(s). O que seria importante era que os autodesignados cientistas, muitos negando o estatuto de ciência ao que designamos de ‘ciências sociais’, lessem um pouco mais sobre o ‘conhecimento social’ e sobre a epistemologia das ‘ciências sociais’, a fim de falarem com mais conhecimento de causa sobre esta dimensão científica, sem banalizarem o que, sendo quotidiano, tem, contudo, abordagens próprias.

Ricardo Vieira e Ana Vieira


  
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