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A ciência não é limpa e linear, é terreno de confrontos. O critério dos últimos cinco anos para pesquisa bibliográfica sobre o objeto a investigar toma o campo enunciativo da ciência como homogéneo, invisibilizando-lhe as linhas de força e as regras de produção de objetos, enunciados e conceitos que resultam de jogos de poder.
O que é o tempo? Funda questão. Bastaria o peso dos legados da filosofia ou da física para que não ouse meter-lhe ombros. Mas duma coisa sei: a minha perceção do tempo que pauta a vida académica é a de que ele é uma entidade que cada vez se contrai mais. Indague cada um na sua própria experiência e responda por si, e diga se não vive hoje um tempo mais à pressa, uma maior compressão das tarefas perante o aumento das solicitações. A omnipresença da comunicação permitida pelas novas tecnologias, prometendo inicialmente libertar-nos tempo, foi-se tornando numa máquina de o triturar. A relação entre o consumo dos novos mass media permitidos pelas tecnologias de informação e comunicação – com as redes sociais à cabeça – e a produção de uma espécie de eterno presente tem sido identificada por vários analistas. A outra face do eterno presente é a secundarização da memória. No mundo hipermoderno tudo começa connosco, o que está para trás é rapidamente soterrado pela sucessão frenética dos conteúdos. Vou escolher um exemplo aparentemente pouco relevante para ilustrar este processo, em curso também no campo da escrita em ciência.
Ciência e mercadoria. Tem vindo a ser incentivado circunscrever aos últimos cinco anos a pesquisa bibliográfica sobre o objeto que o investigador está a tratar. Muito haveria a concluir sobre esta contração do tempo. Por exemplo, saber se pode ser um sinal da persistência da imagem da ciência enquanto empreendimento cumulativo, cujo corolário é o de que o resultado de hoje é necessariamente melhor do que o de ontem – e não só é melhor como torna obsoleto aquele. A obsolescência, que o capitalismo industrial programou ativamente, visando uma mais rápida substituição pelo consumidor dos artigos que produzia em série, chega assim à ciência. Estreita-se, pois, o paralelo que alguns têm sugerido entre o paper e a mercadoria nas sociedades de consumo. Pode também esta contração do tempo ser reveladora de novas estratégias para lidar com a superprodução de conteúdos – papers, no caso da ciência. Como sabe quem anda nestes circuitos profissionais, tem aumentado a quantidade de revistas científicas, o número de artigos em cada revista (que são hoje tendencialmente mais curtos) e a quantidade de bases de dados disponíveis. Também a realização de eventos científicos aumenta, facilitada pela sua organização através de plataformas digitais, com livros de atas muitas vezes associados. Perante este cenário de proliferação de conteúdos, a comunidade científica tem de engendrar critérios para fazer face a uma espécie de superabundância. Estamos perante a necessidade de encontrar maneiras de fazer gestão de stocks (para continuar o paralelo com a mercadoria).
Ciência e media. Mas quero aqui refletir sobre uma consequência possível deste critério que incita a citar apenas os últimos cinco anos: a da perda de memória em ciência. Em primeiro lugar, diga-se que seria apenas o reflexo no campo científico de algo mais geral, que é o da perda de memória em consequência do efeito de eterno presente a que já me referi. Mas outra questão, mais funda em consequências, é a do comprometimento que isto acarreta quanto à própria cultura científica dos praticantes de ciência, ao assim fazerem tábua rasa, em nome de um critério aparentemente inofensivo, de todo um passado de resultados, de contra-exemplos destes resultados, de discussões e polémicas, de filiações teóricas distintas que imprimem direções também distintas à pesquisa. O critério de reter os artigos dos últimos cinco anos para efeitos de circunscrição da pesquisa bibliográfica toma o campo enunciativo da ciência como homogéneo, invisibilizando-lhe as linhas de força e as regras de produção de objetos, enunciados e conceitos que resultam de jogos de poder – desde logo os jogados pelo campo mediático, que é hoje instância que interfere com o recorte dos objetos que devem ser alvo da atenção dos cientistas. A ciência não é limpa e linear, é terreno de confrontos; o critério dos últimos cinco anos invisibiliza esta faceta dinâmica, convencendo o incauto de que o importante foi o que as principais bases de dados deixaram emergir na última meia década. Concluo com uma questão para a qual, por muito que medite, não encontrei ainda resposta: porquê cinco anos e não seis?
Luís Fernandes
Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação Universidade do Porto
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