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Os maltratados e esquecidos professores

Pode haver muito conhecimento científico-pedagógico, muita experiência didática, muito domínio de relações afetivas, mas o cansaço é cada vez maior e a paciência vai-se esgotando. O risco é enorme: se o sistema educativo implodir, os únicos culpados serão os ministérios da Educação e das Finanças.

A crise profissional na classe docente, que nos últimos anos se tem vindo a avolumar de forma praticamente indelével, sobretudo nos ensinos Básico e Secundário, faz com que ser professor seja, no nosso tempo, um dos caminhos menos atrativos para os jovens que necessitam de programar o seu futuro. A este propósito, Rui Rio veio lembrar quão baixos são os salários dos docentes, profissionais com licenciaturas antigas de cinco anos ou com mestrados atuais, acrescidos de estágios de profissionalização, se não estiveram incluídos na formação inicial, de anos probatórios e de momentos de avaliação interna ou externa quando mudam de escalão. De facto, um professor no fim da carreira (e hoje em dia poucos chegam ao topo), ao fim de 30 anos de serviço ou mais, ganha tanto, não como um juiz estagiário, mas como um juiz no terceiro ano de carreira. Sem que aqui se negue a importância da profissão de magistrado, não se pode, porém, deixar de ressalvar o papel de um professor na vida de tantos cidadãos, na sua formação, na sua maneira de ser, na sua forma de ver e agir sobre o mundo. O risco que as escolas correm é enorme e, se acaso o sistema educativo implodir, os únicos culpados serão os ministérios da Educação e das Finanças. O grau de envelhecimento dos docentes é grande: há turmas cujos professores têm quase todos mais de 60 anos de idade; pode haver muito conhecimento científico-pedagógico adquirido, muita experiência didática, muito domínio de relações afetivas, mas é inegável que o cansaço é cada vez maior, que a paciência se vai esgotando, que nem o corpo nem a ‘alma’ obedecem totalmente ao que deverá ser a função de um animador. Por outro lado, já este ano, registaram-se situações em que não houve professores para determinadas disciplinas, nomeadamente, algumas das que são sujeitas a exame nacional. Terá a sociedade consciência de que os professores dos seus filhos parecem estar em extinção?

Apesar de tudo, os docentes que permanecem neste barco abalroado a que se chama Escola são uns heróis. Foi sempre assim: perante todas as falhas, desconhecimentos e abandonos por sucessivos governos e respetivos especialistas, os professores – no terreno – resolveram, transformaram, converteram. E a situação pandémica, desde março, tem-nos revelado ainda mais competências dos professores.
Primeiramente, a velocidade com que se prepararam para orientar aulas a partir de casa, passando a dominar novas tecnologias, mantendo o interesse pelos alunos e, sobretudo, a preocupação com aqueles cuja situação não lhes permitia um contacto à distância de qualidade. O seu interesse pedagógico desenvolveu novas técnicas, novas metodologias, engrandeceu a Pedagogia e permitiu tomar consciência de que a aprendizagem à distância é possível, em situações extremas, mesclada ou não com a aprendizagem presencial. Isto é, todos os professores, todas as escolas, descobriram campos novos.
Em setembro, por justas preocupações de inclusão, professores e alunos voltaram (quase) todos à escola. Os docentes de risco poderiam ficar um mês em casa, sem os descontos por atestado médico (que não são pequenos). O medo foi grande, as preocupações muitas, da parte dos pais, dos alunos e dos professores. O reforço de assistentes operacionais foi essencial.

Não foi fácil: ter de lidar com turmas de mais de 20 alunos, em salas precárias a todos os níveis, nomeadamente no espaço; falar com máscara e ouvir os alunos de difícil dicção (acrescida de máscara); usar o álcool-gel constantemente; manter a distância, onde antes havia um toque no ombro, uma mão a apontar diretamente na folha do caderno; aprender a sorrir com os olhos, as sobrancelhas e a testa; manter o sobretudo sempre abotoado porque a porta e as janelas estão obrigatoriamente abertas e novembro e dezembro foram chegando, frios, cinzentos.
Não foi fácil perceber, pouco a pouco, que muitas famílias passaram a viver numa situação bastante precária; que alguns alunos têm fome; que há crises emocionais em casa; que o isolamento prepara o caminho para a depressão; que há jovens que pensam em suicídio.
Mas foi bom sentir a solidariedade entre os jovens e como respeitam a privacidade de cada um e ver como os grupos-turma aceitam razoavelmente as novas regras, moldando-se e ganhando até alguma autonomia. Esta nova forma de estar implica o discernimento, no sentido da descoberta de novas pedagogias ou, pelo menos, da reativação de algumas inovações postas de lado.

Sempre na vanguarda. A evolução pedagógica merece destaque nesta análise. Os conselhos pedagógicos das escolas foram tomando consciência de que deixou definitivamente de haver lugar para modelos de avaliação tradicionais. Avaliar um aluno pela média da sua prestação em dois testes tornou-se definitivamente obsoleto, mesmo para o mais conservador dos docentes.
A necessidade de diversificar os tipos de avaliação – a que está subjacente a utilização de diferentes metodologias, variadas no sentido em que proporcionam a cada aluno uma boa prestação nas skills que melhor têm adquirido – parece agora instalar-se no seu devido e exequível terreno – a interdisciplinaridade.
O trabalho em grupo (ainda que distanciado); a exploração do potencial a nível humano e do conhecimento das várias expressões artísticas, como a poesia, o teatro, a plástica, a música e todas as formas híbridas possíveis; a preparação dos alunos para uma efetiva competência a nível da oralidade; a contribuição para a criação de um planeta justo e sustentável...
E os professores sempre na vanguarda: mal pagos, sem que ninguém lhes agradeça, mas sem abandonarem o barco.

Rafael Tormenta


  
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