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Parece-me possível ter ao mesmo tempo conteúdos curriculares motivadores e atividade escolar que suscite a participação ativa de todos os estudantes. Parece-me possível que todos apreendam Matemática significativa para a vida e reconheçam a importância do que estão a aprender.
Somos confrontados regularmente, na comunicação social, com as dificuldades que os alunos portugueses revelam no estudo de Matemática, em qualquer nível de ensino. Não será possível resolver esse problema, criando uma boa relação dos estudantes com a Matemática? Sabendo que a motivação dos estudantes influencia decisivamente o seu desempenho, a criação de uma motivação pelo trabalho matemático será algo de inacessível ao nosso sistema educativo? A Matemática não deve ser uma disciplina hermética para a maioria das pessoas; deve ser, sim, uma ferramenta fundamental para qualquer cidadão, indispensável para a escolha e compreensão do alcance dos diversos métodos eleitorais (há mais vida para além do método D’Hondt) e para a elaboração de declarações de impostos, passando pelo crescimento exponencial (ou não) das epidemias ou pela estatística alarmante do aquecimento global. Parece evidente que existe uma academização excessiva do nosso sistema de ensino, com disciplinas compartimentadas em bolhas estanques e sobrecarregadas com programas enciclopédicos em que todos os detalhes são essenciais, incluindo as minúsculas notas de pé de página.
Formação para a vida. A professora de História de uma das minhas filhas disse-me, no 5.º ano de escolaridade, que a disciplina tinha de ser pesada para dar uma boa preparação aos que a estudassem no 10o ano (quantos?). Os programas atuais de Matemática A do Ensino Secundário “foram concebidos por forma a fornecer aos alunos instrumentos que garantam um prosseguimento de estudos com sucesso, tendo em consideração que é este o ramo da Matemática do Ensino Secundário que dá acesso aos cursos do Ensino Superior de áreas que requerem uma sólida formação matemática.” A formação para a vida é apenas a formação para estudos posteriores? As empresas dividem-se entre as que decidem fornecer elas próprias a formação necessária ao trabalho pretendido e as que exigem do sistema de ensino que prepare as pessoas para as tarefas profissionais que esperam que elas venham a ser capazes de desempenhar. A Matemática desempenha um papel fulcral na formação dos jovens, com os seus conhecimentos e métodos indispensáveis tanto para a vida do cidadão como para a vida profissional. Tal como escreveu há 60 anos o grande matemático e pedagogo português José Sebastião e Silva (1914-1972): “A matemática não se reduz a ciência isolada platonicamente de tudo o resto. É também um instrumento ao serviço do homem nos mais variados ramos da ciência e da técnica. O professor deve sempre ter presente este facto e tentar estabelecer, sempre que possível, as conexões da matemática com outros domínios do pensamento, atendendo a que muitos dos seus alunos irão ser físicos, químicos, biólogos, geólogos, engenheiros, economistas, agrónomos ou médicos”.
Motivação e participação. O sistema de ensino precisa de ter uma coerência formativa que atualmente não tem, qual manta de retalhos esburacada e incompleta. Sempre incompleta. O documento fulcral Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória não desempenha claramente esta função, ficando no ar a dúvida se o seu conteúdo enforma as práticas educativas dos ensinos Básico e Secundário. A OCDE introduziu um conceito novo-velho na discussão atual: student agency. Nos seus documentos, nomeadamente no COMPASSO para 2030, a OCDE defende que “quando os estudantes são agentes da sua aprendizagem, eles mais provavelmente terão ‘aprendido a aprender’ – uma competência valiosa que podem usar ao longo das suas vidas.” Já Sebastião e Silva apontava como norma que o professor deve “seguir o método ativo, estabelecendo diálogo com os alunos e estimulando a imaginação destes, de modo a conduzi-los, sempre que possível, à redescoberta”. Parece-me possível ter ao mesmo tempo conteúdos curriculares motivadores e atividade escolar que suscite a participação ativa dos estudantes, de todos os estudantes. Parece-me possível que todos apreendam Matemática significativa para a vida e reconheçam a importância do que estão a aprender. Vamos colocar a Matemática no lugar central que se impõe, fornecendo ferramentas formativas eficazes e atuais para todos os estudantes e não apenas para alguns?
Jaime Silva
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