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A nova ‘verdade educativa’: soft skills (ou porque é que não posso ficar calado)

Um discurso, sempre benigno e ausente de uma leitura crítica, que invade o campo educativo e o faz corroborá-lo, ignorando o sentido do laço social, da corresponsabilidade social, anunciando uma certa apologia do vórtice social.

A retórica das soft skills, hoje profusamente difundida no mundo empresarial (e cada vez mais no mundo educativo formal), constrói-se a partir de um pressuposto, amplamente e/anunciado, segundo o qual o mercado de trabalho e as novas exigências do trabalho já não se circunscrevem ao âmbito das hard skills – as que são expressas em conhecimentos e processos intrínsecos às áreas de saber, mais suscetíveis de serem adquiridas num contexto formativo –, mas requerem, agora, já não (apenas) um conjunto de saberes, mas, adicionalmente, um conjunto de atitudes ou habilidades particulares que posicionam o sujeito em posição de privilégio (ou não) no acesso ou circulação no mercado dos empregos.
A primeira constatação desta deriva é fácil de perceber: enquanto o âmbito das hard skills, porquanto operacionalizável em contexto de exercício do trabalho, requeria uma formação prévia em torno de um conjunto de saberes indispensáveis a esse exercício (o que se traduzia numa qualificação, a qual, por sua vez, codificada em função de ‘lugares’ de trabalho, garantia alguma proteção ao trabalhador no momento da contratação), as soft skills remetem-nos para o mundo nebuloso das competências, agora não apenas aferidas em ato, mas sobretudo aferidas ao ‘ator’ do exercício do trabalho; aquele/a que outrora vendia a sua força de trabalho em troca de um rendimento passa agora a vender-se integralmente, numa clara reinterpretação dos ‘trabalhos do corpo’, agora subtil e sofisticadamente ampliada. Como rapidamente se intui, nem a negociação no acesso/circulação ao/no mundo do trabalho é agora estável, nem os modos da sua aferição se baseiam agora em critérios sustentáveis (e controláveis) na relação empregador/empregado.
A segunda constatação prende-se com a eterna conclusão de que a longevidade das formações não se compadece com a imediaticidade das transformações do mundo do trabalho, isto é, a velocidade a que evoluem as transformações no mundo do trabalho não tem correspondente expressão no mundo da produção das qualificações. E então, o ónus sobre esta descoincidência deixa de ser um resultado aferido aos modos de negociação entre estes dois mundos institucionalizados para passar a recair sobre o sujeito que atravessa estes dois mundos, entregue à capacidade (ou não) de adaptação a esta nova realidade na qual as relações interinstitucionais se desfragmentam.
Uma última constatação, centrada agora sobre o sujeito, tributária das correntes económicas neoliberais, mas igualmente da argumentação ‘teórica’ da psicologia positiva, acentua, em torno de conceitos como a economia da felicidade, a estrita responsabilidade do sujeito na determinação dos seus futuros risonhos (ou, claro está, da falta deles). Como referem Eva Illouz e Edgar Cabanas na sua obra «Happycratie» (em torno da indústria da felicidade), “é evidente que todos nós precisamos de esperança, mas certamente não precisamos de otimismo tirânico, conformista e quase religioso que acompanha atualmente a ideia de felicidade”. A obsessão contemporânea em torno das soft skills como imprescindível à afirmação do sujeito seria contrariada, citando de novo estes autores, pela ideia de que “a fortaleza interior não é o lugar no qual queremos construir a nossa vida. Não queremos viver na obsessão egocêntrica da melhoria de si, que não é mais do que um modo excessivo de se disciplinar, de se censurar”. Este é, no entanto, o efeito desejado: o sujeito ambicioso e autocrítico, ciente da sua ambição e do preço a pagar pelo seu eventual fracasso; terá sempre a possibilidade de repartir para uma conquista, mas, entretanto, já interiorizou os seus limites!
O discurso das soft skills é um discurso, sempre benigno e ausente de uma leitura crítica, que invade o campo educativo e o faz corroborá-lo, ignorando o sentido do laço social, da corresponsabilidade social, anunciando uma certa apologia do vórtice social. Não o ignoro, mas desdenho-o e denuncio-o porque quero acreditar que há uma outra visão do educativo possível!

Henrique Vaz


  
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