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Estamos no 10.º mês de retiro pandémico. Embora de diferentes modos, ninguém escapa às consequências deste confinamento forçado e dos comportamentos de proteção e de adaptação familiar, laboral e escolar a que nos tem obrigado.
Entendo que, por maior que seja a vontade de voltar à normalidade da vida em comunidade, de encontrar, tocar, abraçar familiares, namorados, amigos, colegas, vizinhos, de exprimir empatias, alguns transportarão consigo receios e condicionamentos individuais e grupais que irão influenciar o regresso à natural expressão das emoções e à reposição das dinâmicas sociais em parâmetros socialmente gratificantes. Mas todos vamos voltar à normalidade. Creio que não será a mesma normalidade deixada há cerca de um ano. Bastante tem vindo a mudar e, por isso, bastante vai continuar a mudar. A homification gerou fenómenos sociais com implicações no futuro do trabalho e da escola. A intensiva utilização dos meios digitais e tecnológicos nas relações sociais (nas empresas, nas universidades, nas escolas, nas famílias, etc.), constitui um fator determinante das mudanças que têm vindo a ocorrer ao longo destes meses e que irão continuar a desenvolver-se. As práticas de trabalho baseadas nestes meios, até há pouco limitadas a instituições mais inovadoras, são agora condição para a continuidade de todas. A telescola, a web nas suas diversas expressões e conteúdos, as plataformas digitais como o Zoom e o Teams, tornaram-se meios indispensáveis de interação e suporte no processo de aprendizagem. Os meios digitais, que de modo desigual e progressivo, no passado, iam sendo usados nas escolas, tornaram-se, nestes meses, recursos indispensáveis no processo educativo, desafiando mudanças e adaptações nos modos mais tradicionais de gestão e desenvolvimento do currículo. Parece não haver alternativa, senão acelerar o passo pedagógico no sentido de estabelecer pontes entre conteúdos e metodologias mais centradas nos manuais e nos professores e conteúdos e metodologias apresentadas e sugeridas pelos novos meios. Este é um grande desafio colocado à experiência acumulada dos professores e às suas estratégias consolidadas de desempenho docente. São, por isso, tempos de mudanças cruciais na escola.
Desafios pedagógicos. Toda esta dinâmica intensificou competências, apetências (e, mesmo, dependências?) digitais de alunos e professores. Conforme sondagem da Comissão Europeia, desde o início da pandemia até setembro, foi muito profunda a mudança na utilização da tecnologia digital na educação e na formação. A grande maioria dos inquiridos – cidadãos comuns, formadores, professores e alunos – revelaram que melhoraram e querem continuar a melhorar as suas competências digitais. Como referi em artigo anterior, face à premente necessidade de continuar a escola através de meios e recursos tecnológicos e digitais, os professores fizeram ‘fugas para a frente’ no sentido de responderem às exigências das novas e imprevistas circunstâncias, colocando em questão algumas das suas consolidadas estratégias de desempenho profissional. Muitos conceberam e desenvolveram práticas, em muitos casos exemplares, que seria muito útil conhecer e divulgar através de projetos próprios. Durante estes meses de pandemia, a socialização das crianças tem sido limitada ao espaço familiar e mantém-se ainda muito condicionada entre os seus pares. As interações através das redes sociais e outras plataformas, sem uma eficaz mediação do professor, não constituem alternativa às dinâmicas dentro dos grupos. No retorno à escola real, as atividades cooperativas e de reencontro com o meio deverão ocupar espaços significativos das metodologias enquanto forma de socialização, empatia e partilha entre as crianças. Parece desejável revisitar as recomendações das correntes pedagógicas que apelam às aprendizagens cooperativas e à revalorização do meio enquanto espaço de aprendizagens. O confinamento restringiu a vivência e o reencontro com o outro real, em tudo quanto tem de semelhante e de diferente. Também a exposição a certas representações virtuais, sem mediação dos professores e/ou família, pode contribuir para gerar preconceitos e sentimentos discriminatórios em relação às diferenças. Mas esta poderá ser uma reflexão no âmbito da educação para os media.
Carlos Cardoso
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