Página  >  Opinião  >  Os desafios da pandemia

Os desafios da pandemia

Importa pôr em relevo no processo educativo o caráter decisivo da responsabilidade pessoal, o que implica desenvolver e aprofundar o sentido crítico a partir da valorização dos sentimentos mais genuinamente humanos que caracterizam a pessoa humana na sua relação com o outro.

Subitamente instalado no nosso quotidiano, o fenómeno da pandemia da covid-19 jamais deixará de ocupar um espaço cinicamente privilegiado nas nossas vidas. Pelas piores, mas também por algumas das melhores razões.
Na verdade, se as primeiras nos saltam de imediato à vista, as segundas, mesmo que repassadas de repugnância e repulsa, constituem oportunidades de reflexão necessariamente enriquecedoras da nossa experiência de vida pessoal e social, a cujo acesso basta acionarmos a nossa condição de seres pensantes.
Se, no plano estritamente científico, pouco sabemos sobre a caracterização global do fenómeno – desde as suas origens até à constituição intrínseca de todo o processo de propagação e transição planetária –, o que sabemos sobre a circulação externa e sobre a decisiva importância que pode assumir a consciência pessoal no controlo da sua transmissão bastará para nos apercebermos de até que ponto a dimensão do fenómeno estará largamente dependente de cada um de nós.
Nestes termos, estamos confrontados com as duas características maiores da pandemia, contraditórias embora e, até, paradoxais: de um lado, a sua globalidade universal e, do outro, a sua individualidade comportamental. A pandemia é, de facto, um fenómeno global de dimensão universal, mas requer a participação individual de cada um de nós para subsistir.
E é aqui que nos deparamos com a oportunidade de podermos exercer uma das duas funções de que depende a qualidade da nossa identidade: a de cidadão ativo e responsável, embora reduzido à mais ínfima e invisível intimidade, ou a de agente passivo, mas indispensável colaborante do processo de expansão e multiplicação do vírus devastador.
A simplicidade aparente deste comportamento vai muito para além das palavras da informação: é que não basta sabermos o que é preciso fazer para evitar contrair e para evitar contagiar. O que é essencial é o exercício da ação, é alterar a prática da vida nos contextos imediatos do quotidiano, o que significa reconhecer introspetivamente que o nosso quotidiano passou a ser outro, pelo que o eu próprio de cada um terá de passar a ser outro.

O que tem de mudar. É aí que reside a questão fundamental da prevenção do fenómeno da pandemia: ter de reconhecer que temos de mudar o comportamento em cada minuto das nossas vidas, quando, aparentemente, à nossa volta tudo continua na mesma. Importa, assim, interiorizar que o que tem de mudar é a forma como nos relacionamos com o mundo exterior, não de acordo com aquilo que a experiência dos nossos sentidos nos impõe, mas segundo aquilo que a nossa consciência assimila do que nos diz a ciência – consciência que não pode ser apenas teórica, mas essencialmente prática e moral, já que o saber só faz sentido se necessariamente vinculado ao fazer. Daí a importância que este fenómeno assume perante a educação, se não queremos que a simples interação social, por força dos sistemas de comunicação, e especialmente das redes sociais, tomem conta da opinião pública e ditem a seu bel-prazer as normas comportamentais do quotidiano.
Importa, assim, pôr em relevo no processo educativo o caráter decisivo da responsabilidade pessoal, o que implica desenvolver e aprofundar o sentido crítico a partir da valorização dos sentimentos mais genuinamente humanos que caracterizam a pessoa humana na sua relação com o outro. E eis como a consciência do risco que cada um assume e exerce perante si próprio e perante o outro se torna, verdadeiramente, o fundamento e a condição da dignidade e do respeito mútuo.
E nada é mais estimulante para o processo educativo do que pensar e reconhecer que entre a consciência e o risco é a consciência que sobreleva a ameaça do risco, convertendo o risco em mérito pessoal e em dedicação ao próximo.
Nada melhor para encerrarmos esta oportunidade reflexiva do que invocar a figura empolgante de Edgar Morin, que, com os seus 96 anos, nos deixa este testemunho acerca da pandemia:
"É também a ocasião para tomarmos consciência de modo duradouro dessas verdades humanas, que todos conhecemos, mas que estão recalcadas no nosso subconsciente: o amor, a amizade, a comunhão, a solidariedade, que fazem a qualidade da vida."

Manuel Matos


  
Ficha do Artigo
Imprimir Abrir como PDF

Partilhar nas redes sociais:

|


Publicidade


Voltar ao Topo