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A diferença entre saber o nome da ‘coisa’ e conhecer ‘a coisa’

A propósito da pandemia e do conhecimento que sobre ela se produz e dissemina, lembro Richard Feynman, Nobel da Física em 1965, para destacar dois tipos de conhecimento: o que se foca em conhecer o nome que se dá à ‘coisa’ e o conhecimento sobre a pandemia.
Enquanto que o conhecimento que possibilita dar o nome à ‘coisa’ permite que falemos dela sem termos de a conhecer, o conhecimento da ‘coisa’, marcado pelos avanços do conhecimento científico, em domínios que vão desde as ciências da saúde às ciências sociais e humanas, não nos possibilita falar da ‘coisa’, sem a conhecer.
Uma sociedade potencialmente ‘cientificizada’, mas indeterminada quanto ao futuro, suscita-nos uma reflexão sobre o desenvolvimento de competências que permitam gerir, questionar e apropriar informação e conhecimento para antecipar o futuro. Com efeito, os 5% de incerteza da eficácia da vacina e o que não foi dito sobre os resultados dos seus testes clínicos, em termos de efeitos adversos, colocam-nos perante a incerteza a que não se pode escapar.

Os tempos da ciência e da política. Com efeito, no passo em que o futuro ganha notoriedade e em que o número de acontecimentos que promovem as mudanças sobre o conhecimento da ‘coisa’ marcam a cadência, ou os ritmos do tempo, notamos que se o tempo das ciências da saúde é marcado pelos avanços, apenas aparentemente rápidos, na produção das vacinas, o tempo político é marcado por decisões que pretendem responder às necessidades (económicas) prementes da sociedade. 
Esta condição tem subordinado o tempo dos acontecimentos científicos ao tempo político, contribuindo para invisibilizar a necessidade de gerir politicamente outras pandemias, como a da SIDA, que afeta silenciosamente, sobretudo, o Sul-global, ou a das desigualdades económicas, políticas, culturais, sociais, que afeta do mesmo modo também o Norte-global. 
A meu ver, esta subordinação dos tempos da ciência aos da política contribui para a ineficácia da conversão da mensagem e da informação, transformando o processo de comunicação em panaceias ou bodes expiatórios de todos os males. Neste sentido, cabe à sociedade potencialmente ‘cientificizada’ chamar a atenção para a relevância da distinção entre saber o nome da ‘coisa’ e conhecer a ‘coisa’. 
Todo o processo de comunicação é um processo de criação de laços entre emissores e recetores e a adoção de uma atitude de ‘obra aberta’ confere às certezas científicas um estatuto provisório, salientando a oportunidade de confrontar a sociedade potencialmente ‘cientificizada’ e indeterminada com inúmeros pontos de vista. A atitude de ‘obra aberta’ foi introduzida por Umberto Eco ao referir-se a criações artísticas. A diversidade de interpretações que se fazem de uma partitura de uma peça de música clássica, ou das mensagens e informações que proliferam e veiculam o conhecimento da ‘coisa’, constroem o mundo. Neste sentido, é necessário dar voz às ciências sociais e humanas e da educação para evidenciar as relações entre o sujeito e o seu mundo.?De facto, as oportunidades de explicar algo que acontece sob os nossos olhos, e que continuamente muda, seja o objeto da indagação, sejam os métodos que permitem interpretá-lo, leva-nos a recusar definições estáveis e ‘catedráticas’ sobre o mundo. Por outras palavras, o conhecimento sobre a ‘coisa’ é vazio de significado até que o recetor, ou melhor, o intérprete preencha esses vazios, enquanto questiona a sua ‘verosimilhança’ e lhe atribui significado em relação a um conjunto de princípios e de valores humanos.

A educação na busca de uma competência per se? Perante a dificuldade em antecipar o futuro, agravam-se os desafios que a educação enfrenta. Muitas vezes, o ‘conhecimento’ sobre a ‘coisa’ aparece diluído na retórica das ‘competências’, sobretudo, quando se valorizam as ‘capacidades de comunicação’ em detrimento da argumentação que sustenta uma posição.?
A questão que se coloca quando a ‘coisa’ nos abre a janela para encontrar uma nova maneira de olhar para o que realmente interessa na educação é a seguinte: será que a educação numa sociedade potencialmente ‘cientificizada’ nos permite adotar uma atitude de ‘obra aberta’ para conhecer a ‘coisa’ na sua pluralidade??Como ‘obra aberta’, o próprio conceito de ‘competência’ é continuamente interpretado e (re)interpretado, possibilitando que a educação, como uma competência per se, se configure como uma forma adequada e deliberada de agir e que, em situações complexas, envolvendo o ambiente natural, social e humano, permite que se possa fazer uma avaliação do desempenho dos cidadãos face às exigências da situação.
Portanto, a educação, assim vista, permite questionar o conhecimento que se tem da ‘coisa’, construído na interação entre as diversas áreas do conhecimento científico e ecoará a cadeia de valor da educação. E isso, a ser assim, permitirá distinguir não só o nome da ‘coisa’ e o conhecimento da ‘coisa’, como alargar as possibilidades e alternativas de ação, porque saberemos falar da ‘coisa’, conhecendo-a.

Amélia Veiga


  
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