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Para o Adriano Pinto
The End é o título do editorial do número de Março dos Cahiers du Cinéma. Assinado por toda a redacção da revista, que anuncia a sua demissão em bloco, informa que, no dia 31 de Janeiro, um conglemorado de produtores e homens de negócios compraram a revista. Os leitores tomaram conhecimento dos novos accionistas, cuja lista é pública. Entre os 20 nomes, ao lado de produtores: Pascal Caucheteux (Arnaud Desplechin), Toufik Ayadi e Christophe Barral (Les Misérables), Marie Lecoq e Frédéric Jouve (os filmes de Rebecca Zlotowski), Marc du Pontavice (J ´ai perdu mon corps), Pascal Breton (série Marseille). Ao lado de homens de negócios: Grégoire Chertok (banco Rothschild), Éric Lenoir (mobiliário urbano Seri), Reginald de Guillebon (Le Film Français, Première) e o ‘love money’ de Xavier Niel (Free), Marc Simoncini (criador de Meetic), Stéphne Courbit (Banijay, produtor de audiovisuais), Frédéric Jousset (Beaux-Arts), Alain Weil (BFM). “A redacção no seu conjunto decidiu deixar os Cahiers du Cinéma. Os jornalistas assalariados accionaram a cláusula do direito de consciência que protege os jornalistas quando há mudança de proprietário. Uma tal decisão é decepcionante para nós e inédita na história da revista.” A crise coincidiu com a eclosão da pandemia, mas é mais uma vítima de outra pandemia – o capitalismo, nesta sua fase cada vez mais predatória. Sei bem que, desde os primórdios, a crítica de cinema, principalmente da altura da descoberta pelos intelectuais dessa arte como sétima, inventou os seus autores. Não podia ser de outra maneira, já que se tratava de equiparar o cinema a outras artes mais antigas, personalizadas em torno do seu criador, pelo menos desde o século XVI. Em Portugal, ainda hoje, persiste-se em associar política de autores em Cinema à revista francesa e aos anos 50 do século passado, em que ela aparece. Ignora-se que a novidade que os Cahiers trouxeram foi o alargamento deste conceito ao cinema americano. Mais exactamente, a tese de que o cinema americano tinha dado muito mais autores do que os canónicos Griffith, Ford, Wells, Stroheim, Lubitsch... Mas acima de tudo, convenceram-nos que Hitchcock e Hawks também o eram.
P.S. Neste período deixaram-nos dois dos melhores actores de sempre: Max von Sidow e Michel Piccoli. Quanto ao primeiro, se tivesse apenas sido o cavaleiro de O Sétimo Selo, de Bergman, estaria tudo dito. Em relação ao segundo, a cena dos sapatos de Vou para Casa, de Manoel de Oliveira, vale por toda uma carreira! Também não podia deixar passar a morte de Maria Velho da Costa, embora a sua passagem pelo cinema seja quase de raspão. Mas – vou ser radical – é a maior escritora portuguesa de sempre. Casas Pardas, e não só, comprova-o.
Paulo Teixeira de Sousa
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