|
Não há jogo, há pessoas que jogam. Não há chutos, há pessoas que chutam. Não há fintas, há pessoas que fintam. Se não compreendermos as pessoas que fintam, chutam e jogam, nunca entenderemos os chutos, nem as fintas, nem os jogos.
Começo com palavras do escritor português Vergílio Ferreira: “Mais forte que as razões é a sem-razão da razão que nos abala e domina” (Invocação ao meu Corpo, 1978). Enrique Dussel, argentino, talvez o filósofo mais representativo da “filosofia da libertação” diz, repetidas vezes, que esta filosofia é herdeira do Maio de 68, da crítica heideggeriana, da teoria crítica e, ainda, da filosofia de Emmanuel Lévinas. E escreve que, muito antes da exploração do trabalhador europeu, que Karl Marx denunciou e estudou, já o negro e o índio eram escravizados, na América Latina, pelos colonizadores europeus, que corporizavam a razão eurocêntrica, machista, pedagogicamente dominadora, culturalmente manipuladora, religiosamente fetichista. Para Lévinas (1906-1996), a ética substitui a metafísica, a ética é a “filosofia primeira” e a ética surge, principalmente, na relação vivida com o ‘outro’, entendido como sujeito e não como objeto! Mas, para que paulatinamente se implante “uma ilimitada comunidade de comunicação de pessoas que se reconhecem reciprocamente como iguais”, interessa, no entender de Enrique Dussel, que se comece por uma ética do discurso, nos mais variados locais da sociedade. É evidente que, para um administrador ou um gestor de um órgão de Comunicação Social, o mundo será entrevisto, naturalmente, pelo prisma dos negócios, dado que, para ele, no mundo todo, as pessoas não passam de agentes económicos, compradores ou vendedores. O desporto, por seu turno, encontra-se inserido em pleno sistema capitalista. Com efeito, os clubes desportivos funcionam como firmas comerciais, que entre si competem, no mercado das várias competições. Por isso, o atleta de altos rendimentos é um novo tipo de trabalhador que vende a sua força de trabalho a um patrão. O amadorismo, na alta competição, acabou...
Um mundo desigual. Quais são os grandes mitos da sociedade burguesa? Em primeiro lugar, a competitividade económica, que se apresenta, num sentido metafísico, como qualquer coisa de eterno, superior ao tempo e à história. O desporto, claramente, reproduz e multiplica este mito. Em segundo lugar, a jerarquia resultante dos desempenhos, nas competições, onde os clubes mais ricos se apoderam dos lugares cimeiros, ajudando assim a uma interiorização das relações de produção capitalista. Cria-se assim um mundo tão desigual que os clubes mais pobres praticamente não existem. Toda a atenção se concentra nos desempenhos do Real Madrid, do Barcelona, do PSG, do Bayern de Munique, do Manchester United, do Liverpool, do Chelsea e, em Portugal, do Benfica, do Porto e do Sporting – e mais exemplos poderiam invocar-se. Em Portugal, por exemplo, os programas televisivos ditos desportivos ocupam-se apenas dos ‘três grandes’. E dos jogadores dos ‘três grandes’. Recordo, neste passo, o jogador Sócrates, que nas manifestações anti-ditadura, no Brasil, lançava ao ar, pelo microfone, a seguinte mensagem: “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”. Se numa democracia ‘tudo é para todos’, nada é menos democrático do que uma competição onde os jogadores de certos clubes têm condições de toda a ordem e em abundância, a que não podem chegar os jogadores dos clubes que ‘lutam pela sobrevivência’. Para Johan Huizinga, no seu celebérrimo Homo Ludens (1938), qualquer jogo ou competição desportiva (cito de cor) “vão para além dos limites das atividades puramente físicas e biológicas. Têm uma função significante, ou seja, têm um sentido”. Se bem que haja “consciências vigilantes” que mantêm o espírito crítico, mesmo no seio das grandes competições desportivas, a esmagadora maioria das pessoas dão ao desporto uma significação social: a vitória de qualquer maneira e a qualquer preço, como o fazem e pensam muitos dos elementos da classe dominante, nas suas instituições bancárias, nas suas fábricas, nos seus comércios, etc., que afanosamente, ansiosamente, procuram o lucro de qualquer maneira e a qualquer preço. E assim um certo tipo de sociedade se vai reproduzindo e multiplicando!
Capitalismo e desporto. Na Escola, relativamente ao desporto, quando se hipervaloriza a educação unicamente física sobre a formação integral, a disciplina sobre o espírito crítico, a instrução sobre a cultura e se esconde que a saúde não decorre tão-só de meia dúzia de saltos e corridas, mas de uma sociedade totalmente outra, também se concorre para o estabelecimento, a solidificação da ideologia dominante ou até o anúncio da ideologia típica de Estados totalitários, que tendem imediatamente a destruir e absorver qualquer assomo de contestação ou de crítica. Na Alemanha de Hitler – onde o Direito assentava na força, no sangue e na raça, e onde se elevou, a princípio absoluto, o direito vital de um povo, com desprezo absoluto pelos direitos vitais dos outros povos –, o espetáculo desportivo alcançou um indesmentível progresso. Só que o desporto era asfixiado pelo abraço protetor da tutela, que fazia da prática desportiva mais um espaço de manipulação, de exploração, de alienação e até de propaganda da ideologia nazi. O culto do sensacionalismo, a ambição da riqueza e o orgulho de ser o primeiro em proezas físicas, tão-só, atentam contra os mais autênticos valores morais, contra os mais autênticos valores democráticos. Conheço, com alguma minúcia, o que se passa nos maiores clubes portugueses, por generosidade de alguns dirigentes e treinadores de futebol. Desde há 20 ou 30 anos, o desporto – mormente o chamado desporto-rei, o futebol – passou a figurar no roteiro de grandes capitalistas, o que significa que nele encontraram um espaço privilegiado para a implementação das suas convicções.
Falta uma ética do discurso. Num sistema económico-político onde são reduzidíssimas as vias de mobilidade social ascendente, o desporto de altíssima competição é, para tanto, uma via aberta às crianças e aos rapazes, superdotados, filhos de famílias pobres. Nos jogos de futebol de iniciados, juvenis e juniores, descortina-se um espetáculo, ao lado do espetáculo nos relvados: as ordens, os gritos, os impropérios dos pais dos jovens jogadores, que já anteveem nos seus filhos a ‘salvação’ da família, como Cristiano Ronaldo o foi da dele. Pena é, digo eu, que seja o futebol a única via de ‘salvação’ das suas famílias! A profissionalização dos jovens futebolistas, neste caso, reflete – e julgo estar a escrever com discrição e prudência – declarada injustiça social. De facto, continua a ser difícil, neste contexto económico-financeiro, que o desporto se transforme num humanismo planetário, respeitador do vínculo indissolúvel entre a unidade e a diversidade humanas!... Falta-nos agora uma “ética do discurso”, que em Dussel supõe que, num diálogo, notícia ou estudo, quaisquer que eles sejam, se verifiquem certos pressupostos: a pretensão de inteligibilidade; a pretensão de verdade; a pretensão de utilização dos meios que melhor podem conduzir à verdade; a pretensão de indesmentível honestidade de processos (cfr. Ética de la liberación en la edad de la globalización y de la exclusión, 1998). Só assim, segundo Dussel, é possível constituir “uma ilimitada comunidade de comunicação de pessoas que se reconhecem reciprocamente como iguais”. Ou seja, no desporto, há outros problemas que uma “ética do discurso” exige que se salientem e apontem, além da tática, dos erros dos árbitros e da brotoeja de rancores que afligem alguns dirigentes do futebol. Resumindo: o futebol é mais do que futebol; poderia escrever também que o desporto é mais do que desporto. Para os que aceitam a revolução científica, de onde nasce a ciência da Motricidade Humana, não há jogo, há pessoas que jogam; não há chutos, há pessoas que chutam; não há fintas, há pessoas que fintam... Se eu não compreender as pessoas que fintam e chutam e jogam, nunca entenderei nem os chutos, nem as fintas, nem os jogos.
Manuel Sérgio
|