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Haikus virais

O haiku tem sido frequentemente usado como estratégia de iniciação poética. É comum a organização de oficinas de poesia para crianças e jovens.

A poesia haiku é oriunda do Japão, onde continua a ter uma enorme vitalidade, suscitando uma intensa publicação de livros e de revistas. É assim um género poético que se enraizou fortemente na cultura popular japonesa. Wenceslau de Moraes (1954-1929), um dos primeiros ocidentais a conhecer e a valorizar este tipo de poesia e autor do livro «Relance da Alma Japonesa», publicado em 1925, descreve-a já como profundamente enraizada na cultura japonesa e nos seus valores de impermanência, de frugalidade e à contemplação da vida presente.
A poesia haiku tem recebido uma forte adesão fora do Japão e ao nível internacional com a organização de congressos e encontros literários e a publicação de revistas e livros. Pode-se falar do fascínio que este tipo de poesia suscitou em grandes poetas de todo o mundo, entre os quais citaríamos Octavio Paz, Ezra Pound, Jorge Luis Borges e Federico García Lorca. Em Portugal, muitos foram e são os poetas que se deixaram cativar pelo “poema mais curto do mundo”. Citaríamos, a título de exemplo, David Mourão-Ferreira, Albano Martins, Yvette Centeno e Casimiro de Brito. De forma muito sucinta, o haiku caracteriza-se pela curta dimensão (na versão mais tradicional, contendo apenas palavras que totalizem 17 sílabas), uma forte ligação ao momento presente e à natureza (sobretudo à contemplação e constatação das suas transformações).
Apesar da sua curta dimensão o haiku tem caráter narrativo. Poder-se-á perguntar: que tipo de narração se pode encontrar num texto que tenha só cerca de 17 sílabas? A narração do haiku passa-se entre algo que é fixo, que é esperado e de certa forma imóvel e previsível, e algo que se move, que se destaca e rompe esta imobilidade. O caráter narrativo do haiku provém desta tensão entre o que é esperado e permanente (por exemplo, as características de uma estação do ano) e algo que rompe este equilíbrio, algo que se assume como disruptivo, e assim nos chama a atenção. O haiku nasce e encontra a sua razão de ser nesta tensão inesperada.
Um exemplo:
Manhã de domingo -
com o canto dos melros,
ao longe, uma sirene.

Todos conseguem. O haiku tem sido frequentemente usado como estratégia de iniciação poética. É comum a organização de oficinas de poesia para crianças e jovens. Organizei um pequeno livro chamado «Do outro Lado do Mundo /From the Other Side of the World», integrando haikus de crianças portuguesas e da Nova Zelândia. Tenho também organizado em escolas de todos os graus de ensino sessões de apreciação e produção de poesias haiku. São momentos verdadeiramente inclusivos em que todos os alunos e professores são convidados a partilhar uma sensação, um pensamento sobre a sua vivência presente. É sempre uma surpresa como toda a gente consegue escrever um haiku e como todos têm uma contribuição pertinente a dar. Encontramos um inesgotável manancial de olhares de jovens de todas as idades que, através da escrita de um haiku, exprimem o seu olhar único sobre o mundo. Na rede social Facebook lancei o desafio para a escrita de haikus que tivessem uma ligação forte com o período de confinamento e distanciamento social que vivemos. Este convite suscitou uma enorme adesão, não só de anónimos, mas também de alguns escritores de créditos firmados.
Dos mais de 150 haikus recebidos, transcrevo uma amostra dos que foram publicados no e-book «Haiku da Quarentena».
A publicação integral pode ser consultada em www.vindas.pt/Haikudaquarentena.

David Rodrigues

Homens quedos.
A primavera vem
na flor do pessegueiro.
(Inês Gomes)

No silêncio da manhã
uma gata salta
sem rede.
(Elsa Correia de Freitas)

As estrelas brilham
só para os olhos
que se levantam.
(David Monge da Silva)

Quarentena –
A segunda lua de mel
há muito sonhada.
(Franklin Magalhães, Brasil)

Amigo, meu ninho,
contigo alinho, linha a linha em ti me aninho.
(Paula Pina)

autoisolamento –
vizinhos passear com os cães,
em silêncio.
(Tomislav Maretic, Croácia)

Estoy solo,
Me descubri.
Estoy contento.
(Jorge Brusca, Argentina)

Assustados,
os dois na cozinha.
A menina dança?
(Luzia Lima-Rodrigues)

Seguro um seixo na mão.
Ele e eu
saudosos do mar.
(David Rodrigues)

Olhos humedecidos
pela brancura da gravidade –
flocos de neve em abril.
(Richard Zimler)

 

N.R.
Colaborador permanente da PÁGINA, o autor publicou vários livros de haiku, nomeadamente «Estações Sentidas» (Ed. Indícios de Oiro), «Respirar» (Ed. Corpus) e «O Livro das Semanas» (Ed. Palimage). Representado em várias antologias, David Rodrigues tem sido distinguido em concursos internacionais.


  
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