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UM ENCONTRO COM ALBERTO MANGUEL (parte 3/3)
Alberto Manguel é, sobretudo, um humanista, acreditando que, “enquanto leitor, o homem poderá ser capaz de imaginar mundos melhores” e criar ”geografias sem fronteiras”. Afirma ainda que “cada texto faz com que haja um sentimento de responsabilidade face aos outros [homens]”.
A extraordinária crença naquilo que de melhor existe na humanidade que lê faz com que Manguel possa ser considerado um renovador do movimento cultural humanista – acredita fortemente nos poderes do leitor: “poder de escolher, de raciocinar, de questionar, de transformar, de recordar e, muito importante, de imaginar mundos melhores”. Certos políticos supõem que “deformando ou empobrecendo o acto da leitura, podem transformar os leitores em meros consumidores, debilitando o seu poder de reflexão, condição que é necessária para consumir às cegas. Durante um tempo, obtêm o seu propósito, porque sempre houve consumidores de todo o tipo de lixo, mas não para sempre; ambos os esforços são, ao fim e ao cabo, inúteis, mas demonstram sem dúvida a extraordinária fé que as autoridades têm nos poderes do leitor.” Realçando o papel cívico da Biblioteca e da Literatura, Manguel considera que “o paraíso é uma biblioteca”, ou seja, ali existe um lugar de felicidade. E esse local especial pode não ser físico – a biblioteca é entendida como uma entidade que, podendo ser material, transcende essa materialidade, na medida em que tem início na linguagem humana. Esta é a ambição de qualquer biblioteca: transcender, através da linguagem, as fronteiras materiais. A linguagem humana confere um estatuto libertador à leitura, promovendo-a a uma dimensão antropológica intrínseca, capaz de, necessariamente, conduzir o homem que lê à sabedoria e à felicidade. O optimismo de Manguel vai ainda mais longe quando afirma que, além da felicidade, a literatura pode ser também um caminho para a imortalidade – “diz-se que a leitura nos concede, por poder falar com os mortos, uma espécie de imortalidade”. Quem sabe, não será por este motivo que transportamos connosco as nossas próprias bibliotecas, para onde quer que vamos, mesmo para lugares de exílio, transformando-nos em “nómadas literários”? E Manguel refere uma série de exemplos desta transumância peculiar. “No século X, Abdul Kassem Ismael, grão-vizir da Pérsia, para sentir-se em casa em qualquer parte onde fosse, viajava com a sua biblioteca de 117 mil obras, carregadas ao lombo de 400 camelos, treinados a marchar em ordem alfabética. Desde os primeiros tempos, os exilados consolam-se com os seus livros, porque eles são, como dizia Margueritte Yourcenar (exilada nos Estados Unidos), ‘a sua pátria’. Próspero, na Tempestade de Shakespeare, leva para o exílio a sua biblioteca mágica. Nabokov recordava a amada Rússia transportando um dicionário russo no bolso. O angustiado Pessoa escreve: ‘tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e trabalhar quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso da civilização e o alargamento da consciência da humanidade’.”
O prazer do texto. No âmbito desta espécie de volúpia literária, a que se dedicam alguns escritores, é quase impossível não referirmos Marcel Proust e Roland Barthes, que, com Alberto Manguel, fazem parte do conjunto de escritores grandes amantes da literatura, os teóricos da “escrita enquanto fruição da linguagem” (Barthes, Variações Sobre a Escrita). Começa assim a obra que Proust escreve sobre O Prazer da Leitura: “Não há talvez dias da nossa infância que tenhamos tão intensamente vivido como aqueles que julgámos passar sem tê-los vivido, aqueles que passamos com um livro preferido.” Esta é, realmente, uma declaração de verdadeira paixão pela leitura. Neste livro, Proust descreve como os pequenos rituais do quotidiano se transformam em obstáculos ao prazer divino da leitura: os incómodos causados pela presença de um amigo, pelo sol que obrigava a uma mudança de lugar, o lanche, o jantar, tudo impõe uma maçadora interrupção da leitura. Recorda as leituras de férias na infância e o modo como se escondia na casa de jantar, onde procurava a calma e o silêncio que lhe proporcionariam ler sem interrupções até à hora de almoço. Conta ainda todas as astúcias que usava para poder prolongar a leitura, arriscando-se a ser castigado. E, se, para Manguel, a leitura é fonte de felicidade, Roland Barthes vai mais além: é um espaço de fruição e de prazer. O leitor é um contra-herói que pode experimentar o prazer no momento em que lê. Esse prazer é-nos dado através do texto, “que contenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura.” Contudo, o leitor apenas tem acesso à fruição quando o texto ultrapassa a fronteira da vulgaridade e da “tagarelice” e se transforma num jogo de sedução capaz de proporcionar um espaço onde se cria a dialética do desejo – um “texto de fruição”. Ainda aqui, no espaço do texto de fruição, se opera uma cesura com a linguagem tradicional. E só nesta condição de corte com a estrutura da linguagem podemos falar na ocorrência de uma fruição (Barthes, idem).
Ana Alvim
NOTA Já depois deste meu texto estar escrito fui surpreendida com a notícia de que Manguel se mudará para Portugal: O Centro de Estudos da História da Leitura enquadrará a admirável biblioteca de Alberto Manguel composta por quarenta mil volumes e terá como local de abrigo a cidade de Lisboa, mais precisamente o Palacete dos Marqueses de Pombal.
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