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António Sérgio, cinquenta anos depois da sua morte

António Sérgio centra o processo educativo em torno da dignidade moral e do processo produtivo, visando a edificação de uma sociedade igualitária, assente na construção da pessoa autónoma e criticamente assumida face à autonomia e liberdade do outro.

Passou quase desapercebido o cinquentenário da morte de António Sérgio, uma das figuras mais emblemáticas da cultura portuguesa do século passado, a cuja memória a consciência nacional nunca deveria ser indiferente pela relevância que a sua obra assumiu perante todo o Estado Novo.
Nascido em Damão, em 1883, onde seu pai desempenhava funções político-administrativas, passou uma boa parte da sua infância (dos três aos dez anos) no então Congo português, de que o pai era, então, governador.
Regressado a Portugal, ingressou no Colégio Militar, dando continuidade ao perfil tradicional da família, onde imperava o pendão da Armada. Não obstante a ausência de escola formal no período africano, a sua integração no novo sistema de ensino fez-se sem dificuldade, registando, aliás, resultados bem-sucedidos, designadamente nos domínios da Matemática e da Física.
Cultivando uma autonomia pessoal sistemática no seu regime de trabalho, imposta pelas condições de vida e coadjuvada pelo apoio familiar, onde o pai se tornou referência estimulante, tornou-se um estudante exemplar, abrangendo diversas áreas de estudo, inclusive Filosofia, cujo campo lhe foi aberto por uma surpreendente leitura da Ética de Espinosa.
Concluído o curso da Escola Naval, António Sérgio inicia a sua carreira profissional com rotas marítimas pelo Oriente, onde se inclui Macau, sem, todavia, perder o gosto pelos estudos. O que, entretanto, irá motivar uma viragem profunda na sua opção profissional.
Na verdade, já em contexto do novo regime republicano, com o qual se manteve relativamente indiferente, apressou-se a requerer uma licença ilimitada, que lhe foi concedida. Como afirmará mais tarde:
“Abandonei a Armada quando se instaurou a República, no empenho de manter a minha liberdade crítica e de me dedicar à vocação que me parecia a minha: ensinar o povo a governar-se a si mesmo, graças a métodos de educação modernos e a novas praxes sócio-económicas” (Cartas do Terceiro Homem. Lisboa, 1957. Editorial Inquérito).
Esta foi a matriz da sua opção existencial – a educação popular e social. Importa, todavia, sublinhar desde já que esta matriz coexistiu com uma grande variedade de atividades de investigação, desde as literárias às artísticas e profissionais: poeta, filósofo, pedagogo, historiador, ensaísta, polemista, tradutor, coordenador editorial, ministro, organizador e promotor de cursos pedagógicos... Neste contexto, assume relevância a sua condição de historiador sobre a realidade do povo português, sempre orientada pela preocupação de o incitar a pensar.

Educação popular e social. Esta multiplicidade de funções preserva, entretanto, uma grande unidade de perspetivas, que é justamente assegurada pela preocupação pedagógica de “ensinar o povo a governar-se a si mesmo”. É evidente que esta preocupação pedagógica está alicerçada numa preocupação mais funda, inerente à conceção sociofilosófica que estrutura o seu pensamento, conceção essa que vai buscar a sua inspiração ao poeta Antero de Quental, que, por sua vez, se inspira em Proudhon.
O que caracteriza essa conceção é o pressuposto de que o sentido da vida depende do uso da liberdade, a expressão mais preciosa do ser humano, articulado com os meios materiais de subsistência. Cabe, justamente, à educação promover esta articulação entre a liberdade e a produção dos meios de subsistência. Daí que António Sérgio centre todo o processo educativo em torno da dignidade moral e do processo produtivo, tendo por base a experiência pessoal e as condições materiais de existência. Ao longo de toda a sua experiência de filósofo e educador, o nosso Autor sempre teve em mente organizar o processo educativo visando a edificação de uma sociedade igualitária, assente na construção da pessoa autónoma e criticamente assumida face à autonomia e liberdade do outro.
Esta conceção de educação pretende responder, simultaneamente, às exigências de uma sociedade pacífica e equilibrada, ao compromisso ético e existencial da dignidade pessoal e às condições de uma economia autossuficiente. Desta tripla função, a que mais confrontos teóricos e práticos levantou à conceção pedagógica sergiana foi, evidentemente, a relativa à caução dos meios de subsistência, indispensáveis à dignidade pessoal.
Como é que a educação pode resolver a questão do processo produtivo? Para tentar contornar o problema, Sérgio articulou a sua conceção pedagógica com a teoria cooperativista, intimamente associada à estrutura educativa através do próprio conteúdo programático. É o próprio que, formalmente, concebe a escola como sujeita às seguintes determinações:
“...cumpre reformarmos por completo a escola, introduzir nela a autonomia escolar (instrução cívica pelo self-government), a educação intelectual pela iniciativa do aluno e o trabalho produtivo em comunidade cooperativa” (Cartas do Terceiro Homem).
É esta vinculação entre educação e atividade produtiva, assente no espírito cooperativista, que marca indelevelmente a obra de António Sérgio.

Manuel Matos


  
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