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As Nações Unidas introduziram o Dia Internacional da Mulher e o Dia da Mãe no calendário de comemorações para fazer valer o que elas naturalmente significam: excecionalidade de gerar, parir, amamentar, educar e proteger um filho; princípio da família, clã, tribo, povoação, cidade, nação.
A meio do ano em que este texto começou a ser escrito já se podia dizer que a história de 2020 tem algumas páginas de consagração de mulheres que se distinguiram no tempo atual: umas de nomeada, por obra realizada nas áreas das ciência e das humanidades; outras anónimas, por simples, mas relevantes serviços prestados à sociedade. Entre as primeiras, há pouco falecidas, podemos referir as portuguesas Maria de Sousa e Maria Velho da Costa. Quanto às segundas, citar apenas um ou dez nomes seria uma injustiça, pois só nas áreas da medicina, enfermagem e apoio humanitário são milhares as que se relevaram na quadra crucial e cruciante da pandemia covid-19 e seus derivados. Todavia, se no segundo caso não se podem distinguir mulheres e homens, tão numerosos e equivalentes foram os dois géneros, falar em consagração das primeiras só se justifica para asseverar – ao revés de machistas e feministas – que não foi por doxa ou episteme que as Nações Unidas introduziram no calendário das comemorações mundiais o Dia Internacional da Mulher e o Dia da Mãe, mas para fazer valer o que elas naturalmente significam, pelo simples recebimento do esperma do companheiro – a excecionalidade de gerar, parir, amamentar, educar e proteger um filho; e ainda, princípio da família, clã, tribo, povoação, cidade, nação.
É sabido que hoje, como há milénios, a ideia da supremacia do macho sobre a fêmea, no reino animal, fundada na força e no porte, se transmitiu ao ser humano como um desígnio da criação, diga-se Deus, ou Natureza. Veja-se, na Bíblia, o papel secundário que o autor do Eclesiastes reservava à mulher, considerando-a como “a coisa mais amarga do que a morte, porque ela é um laço e o seu coração uma rede”; ou nos misosos quimbundos, “à manha da mulher não chega o caçador”. Mas já o autor do Eclesiástico, um século depois do Eclesiastes, reconhecia: “Aquele que possui uma mulher possui o primeiro dos bens, uma ajuda condizente e uma coluna de apoio”; e num segundo misoso: “Parir é padecimento, criar são trabalhos.” No entanto, alguns séculos antes de Cristo, na Antiga Grécia, já a mulher era celebrada na figura de Reha, mãe dos deuses gregos, e na deusa Themis, como símbolo, que ainda perdura, da Justiça. Na Antiga Roma, era Cybele (filha de Gaia, a deusa do planeta Terra) a mãe dos deuses romanos. Afinal, um reconhecimento não podia deixar de ser comum, sobrenadando raças, tempos e espaços – e quaisquer lucubrações epistemológicas –, porque a verdade era só uma: a atuação do homem e da mulher sempre derivou de imperativos económicos de sobrevivência e de exigências, por vezes preconceituosas, da sexualidade, como ainda sucede com a prática da mutilação vaginal. Vejamos: no período do homem-coletor e pastoril, em que a autossuficiência se bastava com a colheita dos frutos silvestres, da caça e da pesca, ainda não se impunha a necessidade do casamento como um contrato virtual. Este só se tornou necessário para o homem-agricultor quando, juntando os produtos da horta a outros bens apetecidos, mas às vezes muito distantes, obrigando a longas ausências – por efeito de troca, venda e aventura – foi preciso que a companheira e mãe, após o primeiro filho de ambos, e eventualmente suportando familiares mais velhos, continuasse a manter a horta e o curral, garantes da subsistência da família entretanto constituída.
Quando, no século XVIII, despontou a Revolução Industrial, substituindo a manufatura pela máquina, nem por isso a mulher-em-casa, para fazer face aos novos custos da vida e padrões da modernidade, deixou de somar aos encargos que já tinha a prática da tecelagem, costura e cerâmica, mesmo que o homem, permanecendo no lar, mantivesse acesa a forja de ferreiro e restaurador de sucata. Todavia, porque a revolução (primeiro industrial, hoje cibernética) não foi mundial, no então chamado Terceiro Mundo, o rio milenário da história do progresso ainda continuou a correr sem perspetivar ao homem e à mulher grandes mudanças a médio prazo. O que não obstava a reflexões como a da filósofa feminista nigeriana, Oèronké Oyèwúmi, professora nas universidades de Ibadam e da Califórnia, inserta no seu livro «The Invention of Women: Making in African Sense of Western Gender Discourses»: Na virada do milénio, uma das questões mais importantes para o feminismo é a fragmentação da categoria mulher – o sujeito do feminismo. (...) Se tomada como certa a identidade da mulher invocada em muitos estudos feministas é o da ‘esposa nuclear’, o seu desaparecimento pode não ser lamentável. Pelo contrário, a sua morte pode limpar o caminho para as mulheres serem o que quiserem ser. Muitos dirão que hoje tudo é possível, reiterando uma máxima do padre António Vieira: “Nós somos o que fazemos.” É um facto que a satisfação da sexualidade não impõe a união dos dois géneros; que a falta de um género no casamento se compensa com um animal de companhia; que a reprodução da espécie se pode fazer em laboratório; que a maternidade se resolve com barrigas de aluguer e as dores do parto com a cesariana. Mas se pensarmos, como o poeta António Ramos Rosa, “Vive-se quando se vive a substância intacta”, só uma interrogação dilemática prevalece: como ser verdadeiramente mais feliz?
Leonel Cosme
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