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A sociedade transparente ilegível

Cada vez mais, os contextos em que nos inscrevemos suscitam sentimentos de incapacidade de leitura. O mundo do trabalho se tornou a tal ponto automatizado e orientado por um novo repertório de termos e práticas da cultura digital que se constitui proeza para iniciados.

Em interessante análise publicada no limiar dos anos ‘90, Gianni Vattimo indaga sobre a possibilidade de uma sociedade transparente. Nela, o filósofo italiano aborda as implicações dos meios de comunicação de massa no declínio de uma visão unitária do mundo e da história [«A Sociedade Transparente», 1991].
Theodor Adorno, no período pós Segunda Guerra, alertara para os riscos de o rádio favorecer, por exemplo, o controle de cidadãos mediante a difusão de slogans, propagandas e visões estereotipadas do mundo, contribuindo para governos totalitários. Argumentando em direção contrária, Vattimo considera que tais meios – centrados, na época de sua análise, em jornais, rádio, televisão e telemática – foram determinantes na dissolução das grandes narrativas explicativas e no delineamento de uma sociedade cada vez mais complexa.
A comunicação planetária trouxera consigo a explosão e multiplicação de Weltanschauungen (visões de mundo), visibilizando minorias étnicas, sexuais, religiosas, estéticas, culturais, histórias infames, e assim por diante, tornando impossível um ponto de vista unitário. Parecia que o encontro com outros mundos, na sociedade tornada transparente, traria consigo a possibilidade de afirmação das diferenças mediante o ato de tomar a palavra e falar de si num horizonte de culturas plurais, cientes de sua historicidade, contingência e limitações.
Por sua vez, um dos grandes sociólogos do nosso tempo, Richard Sennet, apresenta, no final dos anos 1990, um notável ensaio acerca das consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo [«A Corrosão do Caráter», 2002]. Autor de instigantes estudos sobre as transformações da vida, das instituições, das organizações, das cidades e do caráter no novo capitalismo, neste ele percorre os efeitos desorientadores dessa economia. Seu argumento central é que a flexibilização introduzida nas condições de trabalho seria uma melhoria ilusória.
Na reengenharia das corporações com trabalho temporário, risco e reinvenção constante de habilidades, as pessoas estariam frustradas ao projetar o futuro, perdendo o controle de sua vida pela impossibilidade de construir uma narrativa coerente para ela. A consequência disso seria a corrosão do caráter, cujo aprimoramento requer virtudes estáveis, desenvolvidas a longo prazo, como lealdade, confiança, compromisso e cooperação.
Os títulos de dois capítulos deste ensaio foram sugestivos para que eu o articulasse com a discussão levantada por Vattimo. Em Deriva, o sociólogo mostra a incerteza e a instabilidade como condições inerentes às praticas cotidianas do capitalismo contemporâneo, cujos efeitos inevitáveis são a confusão, a ansiedade, a desconfiança e a desorientação. Em Ilegível, aborda a degradação emocional que acomete trabalhadores submetidos a processos de produção computadorizados, onde os materiais, assim como os resultados do gesto produtivo, surgem como meras representações imagéticas em telas. O afastamento dos trabalhadores das ações e operações usuais diretas daquilo que produzem, a atuação na superfície, impossibilitando a compreensão da lógica mais profunda do processo produtivo computadorizado, tornou o trabalho indecifrável, ilegível, gerando sentimentos de incapacidade, impotência, desapego e frustração.

Algo para pensar. A meu ver, os panoramas expostos por estes dois autores, tanto no campo da comunicação quanto no do trabalho, compõem um bem apanhado preâmbulo de nossas ambíguas e complexas condições de existência, 30 anos depois. Incontáveis pensadores renomados e supostamente aptos a compreendê-las alertam para as dificuldades de tal intento.
Cada vez mais, os contextos em que nos inscrevemos suscitam sentimentos de incapacidade de leitura. O mundo do trabalho se tornou a tal ponto automatizado e a tal ponto orientado por um novo repertório de termos e práticas da cultura digital que se constitui proeza para iniciados. Infinitas faces dos acontecimentos em múltiplas plataformas estão disponíveis junto com incontáveis posições e justificativas, mas um fio condutor que torne tudo isso legível parece impossível.
Estamos atônitos em meio às versões dos fatos em que o fake e o true coexistem, trocam de lugar e confundem o tempo todo. Somos convocados incessantemente a decifrar armadilhas embutidas nas mensagens das redes, a proteger dados pessoais enquanto, sem seu compartilhamento, sequer existimos no universo digital global e somos desabilitados para qualquer operação de vida.
Neste cenário, indícios sugerem que a semântica e o léxico transnacional e transcultural do universo digital tornou a sociedade transparente ilegível. Algo para se pensar.

Marisa Vorraber Costa


  
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