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O sentido ou não sentido de uma vida não é imposto de fora. Quem faz o sentido é a própria pessoa. É ela, num ato consciente da vontade, que pode dar sentido à sua vida, e esse ato da vontade é o passo para superar qualquer absurdidade do destino.
Como propriedade óptica da matéria, a opacidade impede a passagem da luz em proporções apreciáveis. Impenetrabilidade da radiação eletromagnética ou outros tipos de radiação. Material translúcido, mesmo quando a luz é visível, a sua passagem ocorre de maneira difusa, tornando as imagens irreconhecíveis. A paisagem da existência humana, como fenômeno social, não poucas vezes é tomada, alegoricamente pode ser dito, pela opacidade. Ou é situada num cenário translúcido. Vidas sem sentido, de um esforço inútil e desafiadas pelo absurdo, do qual provavelmente, na perspectiva referida por Albert Camus, não se poderá escapar, dado que a finalidade última de qualquer vida é a morte. O que é, para os existencialistas, um escândalo, ao qual se soma um outro – as pessoas morrerem sem conhecerem a felicidade. Ocorre que a ordem natural das coisas conspira contra a felicidade, pois tal ordem marcha em direção ao perecimento. Nessa marcha, o que se tem é um permanente bailado de máscaras com a repetição dos mesmos passos. O mito de Sísifo. A mitologia grega nos conta que os deuses haviam condenado Sísifo a rolar uma grande pedra montanha acima, sendo que, após ter chegado ao cume, a pedra voltava abaixo, e Sísifo, num círculo sem fim, teria de levá-la ao cume outra vez, e em seguida recomeçar tudo novamente. Contudo, ao invés de desesperar-se perante essa absurdidade, na interpretação de Camus, ele opta por um caminho diferente. Sísifo se revolta contra o absurdo, e a sua revolta consiste em assumir, com obstinação, a absurdidade, dizendo “sim” a uma tarefa aparentemente sem sentido. A partir desse momento, o absurdo não perde a sua absurdidade, mas é vencido pela decisão de Sísifo de fazer do absurdo o seu destino e de aceitar esse destino. No universo humano, a insurgência contra a ‘absurdidade do absurdo’ consegue transmutar tal absurdidade em sentido, ao menos para quem está submetido ao absurdo. Isso, no mito de Sísifo, é paradigmático. Uma vez tomada a decisão consciente de assumir o absurdo, no repetido movimento de levar a pedra ao cume, ele sente-se feliz, e essa felicidade é a vitória da insurgência contra a absurdidade de uma condição imposta e imutável. A conquista de sentido no sem-sentido. No transcurso da vida, essa condição imposta e imutável é a morte. É preciso conhecimento sábio para, no acima e abaixo da montanha da existência, momentos conscientes emergirem com o Sísifo humano feliz.
A pandemia da covid-19 é, no momento atual, a grande pedra da montanha da existência humana. Frente a ela, sob as nuvens da grande insônia do mundo, homens e mulheres buscam os fios de sentido com os quais se poderá tecer a salvação possível, mesmo que, a médio e longo prazos, a finitude seja o que nos aguarda. Calha apropriado, na conjuntura presente, um antigo filme: The Hellstrom Chronicle. Nele nos é dada a conhecer a batalha diária pela sobrevivência, realçando-se que, dos milhões de espécies que povoaram a terra, apenas duas sobreviveram e aumentaram a própria população após várias hecatombes da história geológica, quais sejam os insetos e os humanos. O filme assinala que a sobrevivência dessas duas espécies decorre de uma especial capacidade de adaptação às mudanças ocorridas no planeta, e que, no futuro, sobreviverá quem melhor se adaptar às mudanças que ainda ocorrerão. Acontece que, intrigantemente, não estando vivos e nem tampouco mortos, os vírus se propagam ‘saltando’ de um animal a seres humanos. Não estão vivos pois não se podem reproduzir por si mesmos, e não estão mortos porque podem entrar em nossas células, sequestrar sua ‘maquinaria’ e generalizar a replicação, tendo intensa eficácia em burlar nosso sistema imunológico. Deve-se lembrar, por outro lado, como se faz no referido filme, que insetos e aracnídeos são programados para agir em nome do todo ou da sobrevivência da espécie. Desse modo, são equipados com algo parecido com uma inteligência coletiva consubstancia- da na total capacidade de trabalho especializado e em instintos mais afiados. Travam, assim, uma luta surda e incansável por seu lugar na terra. Mais que animais sociais, são como ‘milagres de engenharia’ com seus precisos aparatos de caça, combate e defesa, além de todos os cuidados necessários para garantir segurança aos herdeiros. A batalha pela prevalência no planeta. Seja como for, considerando os obstáculos da montanha da existência, a sua opacidade e a busca de sentido para persistir nela, mesmo sabendo que, no limite, nada restará, cabe, por fim, voltar a Camus: o sentido ou não sentido de uma vida não é imposto de fora. Quem faz o sentido é a própria pessoa. É ela, num ato consciente da vontade, que pode dar sentido à sua vida, e esse ato da vontade é o passo para superar qualquer absurdidade do destino.
Ivonaldo Leite
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