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Dois meninos, uma janela

No ensino remoto emergencial, uma série de simplificações deixam de fora as condições de vida dos sujeitos. Parecem varrer para debaixo do tapete desigualdades que não podem ser reduzidas a diferenças. Não se trata apenas do acesso às tecnologias. O acesso é condição necessária, mas não suficiente.

Na primeira fase do isolamento social, esta imagem publicada no Facebook capturou a minha atenção: dois estudantes e a janela que os une/separa. A janela permite visualizar quem está incluído e excluído da ‘solução’ proposta para a impossibilidade de estar na escola. Vemos que um está dentro e outro está fora do chamado “ensino remoto emergencial”. Chamarei o de dentro de Carlos e o de fora de Roberson.
Carlos tem boas condições de trabalho: espaço limpo, organizado, notebook disponível. Pode assistir às aulas sem problemas. Roberson, com suas condições caóticas, sobe em dois caixotes e fica na ponta dos pés para ter acesso visual à aula. É um menino que vive em situação de rua. Talvez nem ouça o que é dito. Até pode ser que seja bom de leitura labial, mas está fazendo anotações. Usa máscara, ainda que esta se mostre bastante suja. Do seu cabelo desalinhado, desce uma enorme gota de suor.
Não há contato entre os meninos. Os dois mantêm os olhos na tela. Nela, uma professora faz uma conta muito básica (4+8=). Na figura dela, chama a atenção o nariz bem comprido, pontudo, lembrando a construção do Pinóquio. Entretanto, não é ela a responsável pelas mentiras que sustentam aquela situação. O que a janela limpa, transparente, permite ver, é uma noção que circula socialmente: a de que, na pandemia, estaríamos todos no mesmo barco. Nada mais falso! Não estamos no mesmo barco, embora todos tenhamos que enfrentar a tempestade. No ensino remoto emergencial, uma série de simplificações deixam de fora as condições de vida dos sujeitos. Parecem varrer para debaixo do tapete (de todos eles) desigualdades que não podem ser reduzidas a diferenças. Não se trata apenas do acesso às tecnologias. Não serão resolvidas, ainda que possam ser atenuadas, através de convênios com empresas para o fornecimento, em comodato, de microcomputadores e notebooks, como pretende o governo do Rio de Janeiro.
O acesso é condição necessária, mas não suficiente. Em Porto Alegre, escolas municipais têm contatado as famílias dos alunos que não estão acessando as atividades online. E têm ‘descoberto’ que muitas tiveram que vender os celulares para dar conta de necessidades mais básicas, como comida.
Voltando à imagem da janela, por mais limpa que ela esteja, o que separa os dois meninos é o abismo da inclusão/exclusão social. Roberson não conta. Quando será que Carlos vai desligar o seu notebook?
Na polissemia das janelas (Windows), vale encerrar este texto com um poema curto de Eduardo Galeano:
Helena Villagra não conseguia abrir os olhos. Seus olhos ardiam. Esfregava os olhos e suas pestanas caíam, e caíam também as sobrancelhas. Ela estava no cinema. Quando finalmente conseguia olhar, o que via era uma tela negra.
[Janela Sobre a Morte (I), em «As palavras Andantes», 1994]

Raquel Goulart Barreto

 


  
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