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Para muitos pais, esta foi uma oportunidade única, mesmo que difícil ou dolorosa. Quando a escolaridade voltar à normalidade, estarão em melhores condições para acompanhar os filhos nas aprendizagens. E, naturalmente, a relação entre as famílias e a escola sairá reforçada.
Acompanhei o meu neto de 7 anos, que frequentou, através de uma plataforma digital, o terceiro período do 2.º ano de escolaridade. Além do apoio que lhe prestei, foi uma oportunidade para observar e refletir acerca deste processo, dos meios, das metodologias e do desempenho dos agentes nele implicados. Permitiu-me conjeturar acerca de mudanças possíveis nas práticas de ensino e aprendizagem quando as crianças voltarem aos bancos da escola. Estas novas circunstâncias de ensino obrigaram as escolas e os professores a esforços renovados de adaptação, através da reconfiguração de competências, recorrendo a meios e estratégias que, em alguns casos, estiveram arredadas ou pouco integradas nos processos de ensino no espaço físico da sala de aula. Também pelo lado das famílias, as necessidades de adaptação foram cruciais e, em geral, exigindo grande esforço e disponibilidade. Acredito que deste tempo de ensino online confinado, resultarão algumas aprendizagens transformadoras da escola e do desempenho dos professores. Para além de algumas das minhas reflexões pessoais incluídas neste texto, certamente que a investigação educacional não irá/está a perder esta oportunidade para conhecer desempenhos e mudanças relevantes que seguramente estão a ocorrer neste período de exceção. Estarei atento!
Relação reforçada. Quanto aos professores, as exigências do ensino em tempo de confinamento vieram, em alguns casos, destabilizar as suas estratégias de sobrevivência profissional (Peter Woods, «Teachers skills and strategies», 1990), desenvolvidas e consolidadas ao longo de anos no contexto de uma escola formal em espaço próprio. Em tempo de confinamento, os professores foram obrigados a “fazer fugas para a frente”, recontextualizando competências e mobilizando saberes e experiências para uma nova realidade de ensino-aprendizagem, quebrando barreiras estabelecidas por zonas de conforto e de estabilidade no desempenho profissional. Pelo seu lado, as famílias têm sido, nestes tempos de pandemia, chamadas a participar e acompanhar a escola dos filhos de forma intensiva e, em muitos casos, com grande esforço extra. Ser simultaneamente pai ou mãe, trabalhador, acompanhante escolar num mesmo espaço, de um ou vários filhos, é obra! Nesta circunstância social e escolar, foi inevitável a aproximação da família em relação à escola dos seus filhos o que, certamente, terá projeção no regresso ao espaço e ao tempo da escola real. O maior envolvimento, em muitos casos intensivo, da família nas atividades escolares dos seus filhos aumentou a sua perceção acerca de diversos factores das aprendizagens. Acredito que, para muitos pais, esta foi uma oportunidade única, mesmo que difícil ou dolorosa, para um maior conhecimento da escola dos seus filhos. Envolveram-se de forma directa, permanente e activa com os conteúdos e metodologias de aprendizagem dos seus filhos a par com uma maior relação com a escola e com os professores. Quando a escolaridade dos filhos voltar à normalidade, as famílias estarão em melhores condições de os acompanhar nas suas aprendizagens. E, naturalmente, a relação entre as famílias e a escola, sairá reforçada.
Distância agrava desigualdade. Os cenários familiares encontrados por esta escola online e televisiva são, como sempre foram, muito diversos: desde famílias com ambientes económico, cultural e social favorecidos, muito disponíveis para acompanhar a escola dos seus filhos, passando por famílias mais ou menos numerosas, onde os pais desenvolvem o seu trabalho online e cumulativamente apoiam os seus filhos nas tarefas escolares, até contextos onde as condições económicas, sociais e culturais não permitem o mínimo de apoio de que as crianças necessitam. E, em alguns casos, acrescem situações de conflitualidade familiar pré-existentes ou agravadas pelo próprio confinamento. Nestas condições socioeconómicas e culturais familiares, mantêm-se ou podem acentuar-se fatores de reprodução das desigualdades nas aprendizagens escolares. Mantêm-se desiguais os recursos de toda a ordem que (não) podem ser disponibilizados pelas famílias para o acompanhamento escolar dos filhos: as condições habitacionais, os meios técnicos, eletrónicos e digitais, a (in)formação para acompanhar a realização das tarefas escolares, etc. Enfim, são desiguais os capitais cultural e social das famílias, como serão desiguais os benefícios obtidos através da escola para a mobilidade social futura. E, em situação de confinamento, a distância da escola agrava esta condição desigual; a criança está só face à escola distante; as condições e o espaço familiar em que vive pouco ou nenhum acréscimo trará às suas aprendizagens escolares. O recurso essencial aos dispositivos digitais durante este período parece ter deixado aberto caminho para o comprometimento definitivo e mais generalizado das escolas e dos professores com estes meios. Mas este poderá ser o tema para um próximo texto.
Carlos Cardoso
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