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É imperativo alterar o modo como a sociedade encara o envelhecimento e trata as pessoas mais velhas, não esquecendo um princípio essencial: se são para pessoas mais velhas, é com elas que as soluções têm de ser encontradas.
São difíceis estes tempos. Tempos de feridas, de privação, de vazio. Tempos exigentes que trazem à luz do dia o que melhor somos capazes de dar e de construir. Por outro lado, na voragem dessa busca de uma ‘boa’ sobrevivência a todos os níveis, estes são também tempos em que a perspetiva solidária de uma existência plena pode, mesmo que de forma inconsciente, estreitar-se e deixar alguém de fora ou deixar mesmo muita gente de fora. Temos tido muitos exemplos bem ilustrativos de como a solidariedade intergeracional existe e pode manifestar-se de forma construtiva e transformadora de uma realidade que nos acusa a cada dia que passa. Não podemos, contudo, confiar na “almofada” da solidariedade para resolver o tanto que esta pandemia desvendou quanto à forma como negligenciamos as condições em que vivem as pessoas mais velhas. Ter menos vida pela frente não pode ser sinónimo de ter pior vida para viver. Esquecer este princípio é uma tentação implícita em muitas ações e em muitas intenções, nomeadamente, por parte de quem detém responsabilidades aos di- versos níveis. Quem está atento, sabe-o; e quem se sente implicado, quer mudar esse rumo. Tudo o que tem sido vivenciado ao longo da crise pandémica só pode ter efetiva utilidade se permitir criar, também, novos horizontes para quem envelhece. A receita é simples: justiça social plena, respeito inteiro pelos direitos humanos. Quando o debate sobre o nosso futuro coletivo é situado em torno das palavras ‘recuperação’ e ‘resiliência’, torna-se imperativa uma clara e forte aposta em mudanças estruturais pensadas de forma a alterar o modo como a sociedade encara o envelhecimento e trata as pessoas mais velhas. No passado dia 1 de outubro, assinalou-se o Dia Internacional das Pessoas Mais Velhas, instituído há 30 anos pela Organização das Nações Unidas. Neste massacrado 2020, o tema proposto para reflexão foi: “Pandemia: será que muda a forma como abordamos a idade e o envelhecimento?” Apoderemo-nos desta questão – qualquer que seja a nossa idade – sem esquecer, também aqui, na multitude de problemas, aquele princípio essencial: se é sobre as pessoas mais velhas, então é com elas que as soluções têm de ser encontradas. E o futuro terá mais vida.
Ana Brito Jorge
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