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Os impactos sociais, económicos e políticos da pandemia são filtrados pela raça, género, classe, deficiência, geografia, que ampliam o já muito desigual status quo. São os mais marginalizados que sofrem as maiores dificuldades – trazidas pelo vírus ou pelo confinamento.
A pandemia da covid-19 veio recordar-nos a nossa própria fragilidade e está a reconfigurar as relações sociais globais de formas que ainda são difíceis de entender e de prever. Como muitas partes do mundo começam a ‘abrir’ as suas sociedades, há muita conversa sobre o ‘reconstruir melhor’, cuja definição e implementação serão muito acaloradamente debatidas nos próximos meses e anos. Apesar da retórica inicial sobre os efeitos indiscriminados da pandemia, as evidências disponíveis apontam claramente para o facto de que os seus impactos sociais, económicos e políticos são filtrados pela raça, género, classe, deficiência, geografia, e que, desse modo, ampliam o já muito desigual status quo. São os mais marginalizados que sofrem as maiores dificuldades – tanto as trazidas pelo vírus como as trazidas pelo confinamento. Alguns têm atendimento médico de qualidade, casas grandes, jardins e frigoríficos cheios; outros não têm acesso a cuidados de saúde, vivem em acomodações exíguas e têm pouco acesso a recursos à medida que as economias param. A pandemia também revelou a fragilidade do sistema global, a fraqueza da liderança na esfera internacional e as respostas divergentes dos estados nacionais, desde a perspetiva da 'imunidade de grupo', que levou a milhares de mortes prematuras desnecessárias, a abordagens muito mais protetoras, que, até ao momento, minimizaram o número de casos e de mortes. Estes tipos de respostas polarizadas também se refletem na forma como os atores poderosos, estatais e não estatais, tentaram usar o momento da 'crise' para avançar com projetos políticos para transformar o mundo pós covid-19 e fortalecer a sua posição – aquilo que Naomi Klein chama, no seu muito conhecido livro, «A Doutrina do Choque». Nesta linha, recentemente, o governo do Reino Unido decidiu fundir o Departamento para o Desenvolvimento Internacional com o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Uma medida que, provavelmente, conduzirá ao aumento da politização, comercialização e militarização da assistência internacional do Reino Unido ao desenvolvimento, com o objetivo de usar o auxílio como adoçante para os novos acordos comerciais pós-Brexit/pós-pandemia.
Os heróis. Como sempre, houve vislumbres de esperança e luz, inclusive o heroísmo quotidiano dos médicos e enfermeiros que arriscam as suas vidas para proteger a vida de todos. O confinamento também está a fazer as pessoas perceberem que os principais trabalhadores das nossas sociedades são, frequentemente, os mais mal pagos, os que têm as vidas mais difíceis e que, geralmente, vêm de grupos de migrantes ou minorias. Não são apenas os médicos e enfermeiros os heróis da linha de frente desta crise, mas também os trabalhadores dos transportes públicos, da limpeza, motoristas, lojistas, prestadores de cuidados, professores, etc. São estas as pessoas que fazem as sociedades funcionarem – não os banqueiros, consultores financeiros, corretores de seguros e especialistas em marketing. Esperemos que as pessoas se lembrem disso quando for passada esta crise. Muitos movimentos sociais pelo mundo fora estão crescentemente a exigir o não retorno à ‘normalidade’ e a uma ‘nova normalidade’ que reassuma as enormes desigualdades e injustiças que dominam no nosso mundo. A recente onda de protestos do movimento Black Lives Matter, na sequência do brutal assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, evidencia a sede global de justiça e os legados interconectados do capitalismo racial. Essa necessidade premente de verdade, justiça e reparações desafia não só o racismo contemporâneo e seus efeitos devastadores, mas também as suas raízes históricas, fundadas na conquista colonial, na escravidão e no próprio desenvolvimento da economia global capitalista. O desafio. Todos esses debates, é claro, têm manifestações educacionais, inflexões e dimensões. As desigualdades na educação foram expostas a todos nos processos de confinamento por todo o mundo. Enquanto alguns alunos têm acesso a espaços online, computadores e salas silenciosas, muitos não têm; embora algumas escolas e sistemas de ensino ofereçam apoio online e suporte digital, muitas outras não. As divisões entre escolas públicas e privadas, estudantes ricos e pobres são exacerbadas e terão efeitos a longo prazo nos resultados e no futuro. Da mesma forma, o setor de tecnologia da educação online vê a pandemia como uma oportunidade para disseminar as tecnologias digitais e colocar as suas empresas ao serviço da revolução online. No Ensino Superior do Reino Unido, o medo de perder as propinas, principalmente dos estudantes internacionais, está a tornar-se rapidamente no catalisador de muitos reitores para ativar antigos anseios de reestruturar e reformar instituições, de uma maneira que, antes da covid-19, parecia ser uma fantasia neoliberal: os empregos estão a ser cortados, os departamentos académicos são fechados e os contratos refeitos, tudo sob o mantra do 'não há alternativa'. Portanto, o desafio para todos nós é garantir que ‘reconstruir melhor’ não seja um mantra para o aumento das desigualdades e injustiças, mas, antes, para a reconstrução de um mundo melhor e mais justo. Um mundo que possa proteger os mais vulneráveis e fazer com que aqueles com ombros mais largos aguentem com mais peso. Como académicos e educadores, temos a nossa parte a desempenhar aqui, com os nossos alunos e colegas, com os nossos corpos e mentes.
Mario Novelli
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