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Entendido como a arte de partilhar e de potenciar os recursos existentes, o capital social é tecido pela rede de cooperação estabelecida entre as pessoas e organizações de uma determinada comunidade na resolução eficiente de problemas coletivos.
Durante os últimos 75 anos, o Harvard Study of Adult Development tem vindo a seguir e a estudar centenas de pessoas adultas com o objetivo de compreender o que as mantém felizes e saudáveis ao longo da vida. As conclusões são de uma desconcertante simplicidade: relações confiáveis, estáveis e gratificantes, para além de tornarem as pessoas mais felizes, conservam a saúde e permitem viver mais tempo, protegem da dor e favorecem a vivacidade intelectual. Ora, o isolamento e o distanciamento prolongados decretados para conter a propagação da covid-19 levantam a dúvida se permaneceremos socialmente vivos após este período. Porque, como afirma João Teixeira Lopes, em reclusão, o laço social debilita-se e podem multiplicar-se casos de relegação social (cf. Notícias Magazine, 27.03.2020). Não será exagero afirmar que o vínculo sociocomunitário saiu fragilizado em cada cordão sanitário instituído ou em cada separação geracional legitimada, tendo-se agravado ainda mais com a suspensão temporária das funções de educação e de mediação humana levadas a cabo pelas diversas instituições sociocomunitárias, com a escola à cabeça. Por outro lado, as medidas de ‘higienização’ instauradas, se compreensíveis, não deixam de estar impregnadas de um certo ideal de pureza sanitária e espacial, tendo gerado, na verdade, uma segregação social – e mesmo moral – dos infetados face aos outros. Para além do estigma, o isolamento e a ausência de relações significativas de vizinhança durante estes meses traduziram-se num medo do outro e numa quebra dos laços de confiança comunitária. O prolongamento das medidas de distanciamento torna provável que desaprendamos a arte de viver juntos... É sem surpresa, pois, que os primeiros estudos que medem a influência que o confinamento obrigatório motivado pela covid-19 tem sobre a saúde mental da população, particularmente sobre os mais vulneráveis, apontam para a necessidade de proceder ao fortalecimento do capital social para reduzir o impacto psicológico adverso do surto [Rajkumar R. P. Covid-19 and Mental Health: A Review of the Existing Literature. Asian Journal of Psychiatry, 52, 102066. 2020]. Há evidências que comprovam que as pessoas que vivem em comunidades com elevado capital social lidam melhor com traumas e doenças, assim como criam melhores condições de vida para si e para os seus vizinhos.
Capital social. Entendido como a arte de partilhar e de potenciar os recursos existentes, o capital social é tecido pela rede de cooperação estabelecida entre as pessoas e organizações de uma determinada comunidade na resolução eficiente de problemas coletivos. Esta colaboração baseia-se em relações interpessoais geradoras de confiança mútua que permitem fortalecer o compromisso cívico dos seus habitantes e despoletar atitudes de reciprocidade [Putnam, R. “Bowling Alone: America’s Declining Social capital”. Journal of Democracy (January, 1995)]. O elemento chave que potencia a prosperidade social e económica não só de uma comunidade, mas também de uma nação, é a capacidade dos seus habitantes darem e receberem confiança, partilhando valores comuns (cf. European Values Study). O fator confiança está, pois, na base do capital social (cf. Coleman, J. S. Foundations of Social Theory. 1990 Cambridge: Belknap Press of Harvard University Press] e só ela dá origem a laços sociais significativos, erigindo-se, por conseguinte, num poderoso indicador de saúde de uma comunidade. Em tempos de pandemia, o vínculo social precisa urgentemente de ser regenerado através de iniciativas revitalizadoras da confiança mútua, promotoras de encontros humanos que despoletam trocas aos mais diversos níveis: informativo, afetivo, de competências e de solidariedade. A questão central para a Pedagogia Social é a de saber como mobilizar, de forma colaborativa no atual contexto, as pessoas e os recursos de uma determinada comunidade que promovem a necessária (re)aprendizagem social do “viver juntos”. E se a intervenção socioeducativa não pode deixar de reconhecer os mecanismos geradores de desigualdade ou de exclusão na sua atuação, deve, todavia, focar-se na (re)construção social a partir das relações, dos vínculos e dos laços sociais. Sendo o capital social um bem indispensável à qualidade de vida coletiva, a confiança constitui a base intangível da riqueza de uma sociedade coesa. Mas esta só se alcança quando se investe na participação, na construção de pontes e em dinâmicas de hospitalidade mútua. A coesão comunitária tece-se de relações de confiança.
José Luís Gonçalves
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