|
Convém lembrar que não existem tecnologias neutras. As mudanças digitais que há muito se fazem sentir nas escolas, da gestão por plataformas aos recursos didáticos, conheceram intensificação, originando reações que exigem debate.
A educação escolar foi sendo confinada à sala de aula e esta, por sua vez, tem sido objeto de um processo de expansão sem precedentes. Segundo a crítica de Ivan Illich, a responsabilidade também seria dos professores, sempre “dispostos a derrubar as paredes das salas de aula, com a finalidade de transformar toda a cultura numa grande escola”. Através das aulas, hoje também “por intermédio da maravilha eletrónica”, escolarizou-se a vida, “ensinando a necessidade de ser ensinado”. Numa escola de feição produtivista, o currículo escolar seria a mercadoria, os exames a expressão maior do “mito da mensuração dos valores”. Basil Bernstein, noutro registo, propôs o conceito de “sociedade totalmente pedagogizada”, permitindo-nos compreender como certas aprendizagens, mais do que a educação enquanto conceito e prática social mais genéricos, se tornaram exigências específicas, qualificações e competências orientadas para o desenvolvimento económico competitivo, a empregabilidade e o empreendedorismo, a otimização pessoal. A influência das tecnologias digitais é, em tal contexto, um assunto relevante, dependendo dos objetivos da sua utilização: para a autonomia e o desenvolvimento social e pessoal, ou para o controlo hiperburocrático e a alienação.
Revolução digital e inteligência artificial. Em plena crise pandémica, as soluções digitais e a distância revelaram-se recursos de emergência, deixando antever algumas vantagens e muitos inconvenientes. A desigualdade social no acesso digital foi, justamente, o mais discutido, mas também a formação dos docentes e a intensificação do seu trabalho, as questões pedagógicas, os quesitos de avaliação externa, as funções sociais de custódia das crianças, os apoios familiares aos alunos, o cansaço, mereceram atenção. Emergiu o teletransporte da escola (virtual, à distância, tele-escola) e, com a escola, a omnipresença da aula como modelo institucional a ser mantido ou mimeticamente adaptado. A aula, dirigida por um professor para um grupo fixo de alunos, sob um currículo, visando a produção de resultados de aprendizagem passíveis de avaliação estandardizada, remete para a velha tradição do ensino em classe, assente na ideia de que é possível e desejável “ensinar a todos como se fossem um só”. Este projeto de escola da modernidade, prometeu, segundo Coménio, uma arte universal de ensinar tudo a todos, e em todos os lugares. Fê-lo com o recurso a uma tecnologia – a invenção de Gutenberg e o acesso aos livros impressos. Hoje é a revolução digital, amanhã a inteligência artificial. A escola, enquanto projeto modernizador e racionalizador capaz de prover e administrar ensino em grande escala, desenvolveu ao longo dos séculos tecnologias pedagógicas, de transmissão, socialização e controlo, que não poderiam deixar de incorporar as tecnologias de cada época, bem como os modelos de administração considerados racionais.
Reações que exigem debate. As mudanças digitais, que há muito se fazem sentir nas escolas – da gestão por plataformas eletrónicas aos recursos didáticos –, conheceram intensificação, originando reações que exigem debate. Quais os limites de escolarização e ‘pedagogização’ da sociedade e do espaço doméstico, de ‘curricularização’ da cultura, de ‘alunização’ de pais, crianças e jovens? O ensino digital e à distância é complemento ou alternativa ao ensino presencial? Quais os riscos educativos em termos de convivencialidade, socialização, ambiente social e cultural de encontro e intercâmbio, de cooperação e de realizações conjuntas? Que impactos em termos de justiça social e escolar? E as possíveis derivas privatistas, de mercadorização, produção e consumo generalizados e alienantes de ‘kits didáticos’ e de outros conteúdos? Transformando professores e alunos em instrumentos dos seus próprios instrumentos de trabalho pedagógico, ou seja, em termos weberianos, podendo vir a aprisioná-los numa ‘jaula de ferro’, agora sob formato digital, dominada pela racionalidade formal e pelos seus critérios absolutos de eficácia e eficiência? Seja como for, convém lembrar que não existem tecnologias neutras.
Licínio C. Lima
|