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Todos sabemos que sem alunos não há escola; mas sem professores... Apesar de serem uma classe profissional significativamente envelhecida, claramente mal paga e quase sem carreira, os professores ‘deitaram mãos à massa, arrepiaram caminho’ e, mais uma vez, como sempre, resolveram a situação.
Desde março, com a pandemia, ficou de novo comprovada a importância social dos professores enquanto motores da Escola e da sua função. Não se nega o papel de ministros, secretários de Estado, diretores-gerais. Mas só a resiliência dos professores, a sua conceção de dedicação, e até a interiorização de um certo espírito de missão profissional, puderam conduzir a uma situação de estabilidade nacional – este é um bom período para a realização de estudos que reflitam de novo a questão da identidade dos professores. De repente, foi necessário passar de aulas presenciais – mais ou menos dinâmicas, ou mais ou menos tradicionais, se tivermos em conta os vários perfis dos docentes – para aulas a partir de casa e para casa. A comunicação e a pressuposta transmissão de conhecimentos passaram a fazer-se a distância, sem aroma, sem tato, sem paladar; só com os dois sentidos que a sociedade dos séculos XX e XXI tem privilegiado: visão e audição. Ficamos diminuídos? Sem sombra de dúvida! Nunca uma aula a distância terá o valor de uma aula presencial... Uma aulinha, por amor de Deus! parece ser o pedido quase mendigado de uma sociedade que, repentinamente, se vê com os filhos em casa e sem alternativas à escola, como ginásios, conservatórios, clubes, salas de estudo, explicadores. A palavra de ordem é distanciamento social e há que ir em frente.
Pudemos observar aulas em que os docentes se esforçaram ao máximo para manter os alunos online atentos e participativos – lendo imagens ou pequenos textos, respondendo a questões, interpelando e trocando opiniões com os colegas – e aulas em que quase sempre o docente falava debitando conteúdos de uma forma rígida e apressada. Pudemos assistir a aulas em que o docente nem um powerpoint apresentava e a outras em que toda uma dinâmica informática concorria para uma aula interessante, com partilha de excertos de filmes, de bandas desenhadas, etc., de acordo com a sua formação. Podemos referir escolas que marcaram online exatamente os mesmos tempos das aulas presenciais e outras em que, a priori, os diretores e os conselhos pedagógicos tiveram a noção de que cerca de 50% era mais do que suficiente. Houve até quem concluísse que os alunos, sozinhos em casa (ou acompanhados pelos pais), estavam mais atentos e participavam de forma mais ativa, como se essa atitude fosse a tentativa de um prolongamento ou de um substituto da relação presencial ausente. Seja como for, todos os docentes se esforçaram bastante, trazendo, tanto quanto possível, o seu modus faciendi para a internet, para que as coisas corressem bem, para que se desenvolvesse a interação executável.
Cansaço, angústia e stress foram-se acumulando. Faltava, também aos docentes, o apoio presencial e incondicional dos colegas, a quem se aliam para desenvolver bons projetos na escola, capazes de ultrapassar a burocracia, tantas vezes inimiga da satisfação no trabalho, mesmo quando os apoios e os recursos são tão poucos, num país que, por um lado, tem dificuldades económicas e, por outro, não parece investir tanto como seria necessário em educação e cultura. Verdadeiros obreiros da Educação, os docentes precisam de ser ouvidos, porque o seu conhecimento é de uma riqueza incalculável. Neste regime de exceção, uma das maiores frustrações para os docentes, que a pandemia fez deflagrar, foi a incapacidade para resolverem determinadas situações do quotidiano das escolas; a ausência do convívio diário não permitiu identificar as questões socioeconómicas, as crises familiares, a violência doméstica e no namoro, as doenças, o abandono... As pequeninas soluções que os docentes, diretores de turma ou não, vão descobrindo na cumplicidade do seu dia-a-dia, na maior parte das vezes sem qualquer registo, ficaram muito aquém, apesar das intervenções das comunidades educativas, apesar da implicação das autarquias. A inclusão foi posta em causa: os alunos que não têm computador; os que só têm som, mas não têm imagem; os que nem internet podem pagar; os que não têm apoio em casa; os que necessitam de medidas especiais; os que têm fome; os que é preciso recuperar. Os conteúdos que possam não ter sido abordados, têm uma vida inteira à espera de recuperação. Mas o desenvolvimento e a vida destes alunos não.
Rafael Tormenta
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