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Em «Rosa Púrpura do Cairo», de Woody Allen, a personagem interpretada por Mia Farrow entra no ecrã do cinema e passa a viver, dentro do filme, com as suas personagens fictícias. Com a pandemia da covid-19, tivemos a estranha sensação de ter sido subitamente colocados dentro de quadros de Edward Hooper.
Nos últimos meses, atravessámos o mundo que o pintor norte-americano (1882-1967) anteviu na sua pintura ao longo do século XX. Um mundo desassombrado de ruas desertas, de seres solitários e dis- tantes, que buscam um sentido para a sua humanidade. Esperam no limiar, na porta de entrada ou no alpendre, na dúvida se é cedo ou tarde, face à interpelação ambígua da evidência temporal. Em Hooper, a solidão está por todo o lado, é intrínseca à condição humana. São seres ausentes, ocupa- dos ou alienados nas suas rotinas, que circulam em piloto automático por espaços vazios e esquecem o quotidiano indesejável. Contudo, são também iluminados por uma luz interior que lhes confere uma alma e uma beleza incontornável. O realismo da sua arte, e que se espelha no espaço, nas casas, nas ruas e nos automóveis, sugero e da esfera mais privada e melancólica, da família, do lar, do eu. Vinca de forma subtil e com grande ele- gância o percetível, para sublinhar o lado onírico e necessariamente subjetivo da existência humana. Pinta momentos de transição, instantes do quotidiano, de uma forma particularmente simples e bela. Será possível explicar os fenómenos sociais pelos movimentos (ou pela ausência de movimentos) dos corpos? Hooper interessa-se não pelos factos, mas pelas formas de ação, pelos modos de pensar que se escoam nos acontecimentos, na procura de uma rede de significados e relações que estruturem a vida humana.
Segundo Andrei Siniavski, citado por Saul Bellow em «Jerusalém, Ida e Volta» (1976), “a arte é um ponto de encontro. Do autor com o objeto do seu amor, do espírito e da matéria, da verdade e da fantasia, da linha desenhada por um lápis, o contorno de um corpo, de uma palavra com outra. Esses encontros são raros, inesperados (...) Nestes gestos de surpresa e de alegria, vê-se a arte”. Numa época em que se cultivam o distanciamento e a solidão, a vida celular, pautada por olhares afas- tados, irremediavelmente desumanizadores, é imperativo interrogarmo-nos sobre os efeitos da ausência de contacto humano. É essencial reivindicar o papel da educação como espaço de partilha e comunica- ção, de proximidade relacional na construção do saber que viabiliza a interpretação crítica do mundo. Que a educação seja, tal como a arte, um recompensador ponto de encontro entre a vida e o signifi- cado que lhe damos, entre o espírito e a matéria, a verdade e a fantasia, a regra e a transgressão. Que denuncie e combata o preconceito, a mentira e a injustiça. Um espaço de partilha, de reunião, de pro- ximidade física e relacional, que desencadeia, com a surpresa, a alegria e a recompensa da descoberta. Como escreve Siniavski, que o encontro conduza à formulação de uma pergunta – “És tu? És mesmo tu?” – e desencadeie uma ação: “Reconhecendo-se mutuamente, ambas as partes são tomadas de um arrebatamento e apertam as mãos”.
Paulo Delgado
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