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Como argumentar que, para combater a arrogância da ignorância, as escolas são espaços de interação dialógica muito necessários, quando, depois de uma crise de saúde pública, ao que parece, é mais fácil abrir esplanadas do que as escolas?
Alguma hesitação na ligação, uma cara que aparece e desaparece e depois estabiliza. Iniciamos uma sessão de trabalho a distância. O rapaz, 11 anos, olha para mim através da câmara do recém-oferecido dispositivo. Começa a hora de apoio escolar. Para mim, um trabalho voluntário, para ele mais um trabalho para o qual os adultos o convocaram. – O que queres fazer? – Ver fichas que a minha professora mandou. Com alguma ajuda da irmã, as fichas aparecem na minha caixa de correio eletrónico. São colagens de pedaços de manuais escolares, em documentos PDF. – Queres ver alguma em especial? – Não, são tantas. Pfff. Analisámos um poema de manual (sem autor e sem graça) numa ficha de Português. Encontrámos as palavras a destacar para recompor um texto com lacunas. Depois respondemos a perguntas acerca do poema. Ainda organizámos pela ordem certa os versos de outro poema sem autor. Um trabalho mecânico. – Tenho que responder a estas perguntas todas? – Como é que costumas fazer? – Envio o trabalho por mail à professora... Tchiii, vou ter de escrever isto tudo. Não tenho impressora, tenho que copiar tudo. A cara do rapaz expressa bem o desespero: não é só esta ficha. Mais uma dezena estão à sua espera. Mais as de Matemática. Mais as aulas do EstudoEmCasa. – Já deves estar cansado de trabalhar assim, não? Deves ter saudades da escola? A resposta é avassaladora. – Não, nada. Estar em casa é muito melhor!
Penso nos manuais de 1640 que acabei de ler, editados nos Países Baixos, para uso nas escolas das aldeias e nas pequenas escolas da cidade. Contêm o ritual que Manoel de Figueiredo já criticava em 1722: ensina-se primeiro a ler as letras, depois a ler as sílabas, depois a copiar pequenos textos edificantes, para assim ganhar destreza para a escrita. Estes manuais foram pensados para facilitar o ensino simultâneo, pelo que as próprias lições definem as classes de crianças. Muitas classes são muitos mestres. Assim, perante o crescente custo da escola que não é para a burguesia ou a aristocracia, Lancaster propõe, no início do século XIX, o ensino mútuo. “Um mestre, mil alunos”, é a sua bandeira. O falso trabalho a pares, da escola distante de ensino mútuo, entre quem já está mais avançado, recrutado pelo professor, e quem tem dificuldades com o trabalho encomendado, não existe na escola a distância. Esta escola mantém o ensino simultâneo, advogando a salvaguarda, se não da equidade, pelo menos da igualdade. Para todos os lares da nação que dispõem de recetor, são enviados conteúdos centralizados e agrupados em pacotes. O desembrulho poderá ser assistido, em momentos síncronos ou assíncronos, desde que o lar tenha interconectado o necessário aparelho digital de comunicação.
Que mal fizeram as crianças a estes muitos adultos, que continuam a organizar a escola distante, agora a distância? Ficaram estes adultos presos à ideia da criança tabula rasa, ideia antiga recuperado por Locke no advento da escola-fábrica para os pobres? Continua válida, para estes adultos, a lei do Império Romano que declara a criança in fans? Como argumento com o rapaz que, para combater a arrogância da ignorância, as escolas são espaços de interação dialógica muito necessários, quando, depois de uma crise de saúde pública, ao que parece, é mais fácil abrir as esplanadas do que as escolas para esta interação? Mais vale manter as escolas do ensino mútuo ou simultâneo fechadas? Ou abrimos as escolas como são, mantendo ou não as esplanadas fechadas? Abrimos as esplanadas e convidamos os educadores para aí aprenderem, entre eles e com outros, como fazer para dar sentido ao trabalho de aprendizagem? Como fazer para ouvir as crianças e desenhar com elas o projeto comum de desenvolvimento curricular? A reflexão coletiva e a subsequente mudança de paradigma serão mesmo necessárias para que o meu pequeno interlocutor possa considerar a escola como um espaço útil para um projeto de aprendizagem e deixar de ficar sujeito à pequena escola com o modelo de Lancaster ou de La Salle.
Pascal Paulus
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