Da pandemia à cidadania
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O papel da educação é formar cidadãos para um futuro comum, superando barreiras entre nós e os outros através do diálogo intercultural, e criar uma sociedade fundada no respeito e na preservação da natureza, bem como na promoção e defesa dos Direitos Humanos.
Não nascemos humanos, é imprescindível aprender a sê-lo. A educação em e para a cidadania é a via para a humanidade. Assim, a educação deve preparar os indivíduos para o exercício da cidadania, abraçando a liberdade e a responsabilidade em função do bem comum e do trabalho público em comunidade, tornando a sociedade mais justa, inclusiva e democrática.
As rápidas alterações que a covid-19 tem provocado nos comportamentos devem levar-nos a estar mais atentos à mudança que queremos na prossecução dos Direitos Humanos. Urge participar na definição das políticas do país e da União Europeia, procurando uma maior compreensão entre norte e sul, as regiões fronteiriças, o litoral e o interior, os mais ricos e os mais pobres, por forma a que todos tenham os mesmos direitos e deveres – igualdade de oportunidades e oportunidades para a igualdade para todos os cidadãos.
A procura de notícias sobre a pandemia levou a um crescimento de contrainformação com o objetivo de angariar apoiantes de ideias nacionalistas, responsabilizando o outro do mal que afeta a humanidade. A necessidade de estar atualizado e procurar culpados foi-se intensificando. Apesar destes sinais preocupantes, em rutura com os Direitos Humanos, cresceram movimentos de solidariedade para com os mais vulneráveis e mais atingidos, respondendo às necessidades urgentes de sobrevivência.
A par do aumento das fake news, o homicídio filmado de George Floyd, um cidadão “afro-americano” foi também alvo de movimentos contraditórios, surgindo em diferentes regiões do globo manifestações antirracistas, contestadas por aqueles que negam a existência destes comportamentos segregacionistas.
Após o tempo de desconfinamento, de muitas dúvidas e incertezas, esta praga que tocou a todos, embora a uns mais do que a outros, obriga-nos a repensar as fragilidades da condição humana e a imprevisibilidade do futuro. Perante a velocidade dos acontecimentos, aconselhou-se consenso, racionalidade, calma, responsabilidade, solidariedade; porém, os contextos e as situações não foram nem são iguais para todos.
Os valores, os saberes acumulados, as ideias, as experiências vividas, as tecnologias, a economia, a política, a educação e a vida convidam-nos a refletir criticamente sobre a sustentabilidade do mundo em que vivemos. Nestes tempos difíceis, houve vozes que se levantaram a favor dos Direitos Humanos, da justiça social, da esperança e da dignidade humana, mas também não podemos ignorar ódios, racismos, perseguições e indiferenças que emergiram. É preciso voltar a acreditar que outro mundo é possível.
Concordamos com Paulo Freire quando nos exorta a partir à conquista da “ética universal do ser humano” e a sublinhar que “o sonho de um mundo melhor nasce das entranhas de seu contrário” e, como tal, a educação e a política não podem dissociar-se, devendo a educação desocultar as falsas neutralidades e contribuir para a formação da pessoa humana com direitos e deveres. Deve, fundamentalmente, preparar para agir com discernimento, procurando a verdade, o bem-comum e o sentido de pertença que nos deve guiar para lidar com o inesperado. Neste sentido, é imperioso repensar criticamente a educação digital para tirar o melhor partido dela, mantendo-nos saudáveis e não dependentes e acríticos.
É esse o papel da educação, formar cidadãos com o objetivo de construir um futuro comum, superando as barreiras entre o nós e os outros através do diálogo intercultural e criar uma sociedade sustentável fundada no respeito e na preservação da natureza, bem como na promoção e defesa dos Direitos Humanos. O que supõe que a cidadania local e global apareça como fermento e sustento da liberdade, da equidade, da justiça, da democracia, do pluralismo, da responsabilidade, da segurança, da solidariedade e da paz. Porque “a cidadania é o capital mais firme dos povos”, nas palavras de Albert Cortina, é urgente combater a pandemia e, ao mesmo tempo, lutar contra os flagelos sociais e humanitários, refundando os valores com políticas económicas, científicas, tecnológicas, sociais, educativas, sanitárias, culturais, ambientais e humanas que potenciem a unidade na diversidade.
Américo Nunes Peres e Maria Luísa Bravo Lamas
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