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Da pandemia e da solidariedade aos outros lados da condição humana

A marginalização é uma construção e nunca um dado. É fundamental que na escola e na família se dialogue sobre o que aconteceu e está a acontecer, para que todos sejamos mais exigentes na efetiva e não demagógica realização da solidariedade.

A pandemia da covid-19 e o confinamento que, para limitar os seus efeitos, foi imposto, a par dos aspetos positivos que revelou em termos de responsabilidade e solidariedade, trouxe também ao de cima representações, sentimentos e atitudes que, desqualificando pessoal e socialmente os seus protagonistas, deverão ser objeto de reflexão, especialmente para os educadores e educandos, mas igualmente para a sociedade em geral. Na verdade, as crises e os momentos críticos da vida coletiva e individual, se, por um lado, exponenciam as fragilidades das pessoas mais vulneráveis, potenciam, por outro lado, redutos inconscientes fazendo deflagrar ambições e exercícios mais ou menos violentos de poder.

Slavenka Drakulic romanceia este fenómeno de uma forma extraordinariamente elucidativa nessa perturbadora obra «Não Faziam Mal a uma Mosca», em que relata episódios cruéis de que foram autores, durante a guerra civil da ex-Jugoslávia, amigos ou vizinhos aparentemente afáveis e pacíficos durante os longos anos anteriores de uma vida em comum. E a autora faz-nos uma confissão para, logo de seguida, nos colocar uma inquietante pergunta: “O meu propósito ao escrever este livro é simples: não sendo possível negar que foram cometidos crimes de guerra, quis saber mais sobre os seus autores. Quem eram? Pessoas comuns, como o leitor ou eu, ou monstros?”.

É evidente que nada se passou entre nós com os contornos terríveis do que ocorreu nesse período terrível da guerra dos Balcãs, mas se nos detivermos nos pressupostos de algumas das atitudes que rapidamente se assumiram durante o confinamento inerente ao estado de emergência, poderemos encontrar representações e sentimentos que entre si se aparentam.

Referimo-nos à forma desrespeitosa como se dirigiram a uma idosa que passava a pé numa rua de Guimarães e incrédula ouviu, sem mais, no meio de palavrões e gritos, a ordem para regressar a casa. Valeu a voz de uma vizinha que carinhosamente lhe tentou explicar que agora tinha de estar em casa devido ao vírus. No Porto, um idoso também é bruscamente surpreendido quando, num autocarro, sem mais o questionam, como se de um marginal se tratasse, sobre o que estava ali a fazer, de onde vinha, onde morava, etc., obtendo como resposta escassas palavras de perplexidade e medo. Tudo em nome da ordem e da segurança, ignorando-se completamente os dramas que poderiam encerrar cada uma destas vidas, entre eles o da solidão ou da pobreza de uma casa sem condições... Por sua vez, diversos familiares, aqui em nome de afetos e da saúde, retiveram pais e avós nas suas residências, mesmo na perspetiva dessa situação poder demorar meses e até anos. Sem pensar em mais nada, designadamente na liberdade de que ninguém pode ser privado a não ser por comportamentos criminosos, nos anos de vida que, sendo já poucos em perspetiva, estavam assim a ser desperdiçados ou na necessidade, que também é humana, de se cumprirem rotinas. A oportunidade de inversão dos polos do poder terá sido aqui um fator importante.

Cultivar a capacidade de discernir. Em todos estes casos, do simplismo na interpretação de ideias, valores e orientações à embriaguez do domínio sobre o outro resulta um empobrecimento da relação humana e um esquecimento da própria condição humana com uma queda abrupta na desumanidade, ainda que em nome do bem comum.

Na verdade, mesmo que em nome do bem – e é sempre em nome do bem que estas coisas se passam! – temos de cultivar a capacidade de discernir o que é de facto o bem e o que significa para, desde logo, o distinguir do mal ou tão-somente da proximidade do mal.
A marginalização é uma construção e nunca um dado. É fundamental que na escola e na família se dialogue sobre o que aconteceu e está a acontecer nos casos aparentemente simples do quotidiano, para que todos nós sejamos mais exigentes na efetiva e não demagógica realização da grandeza inalienável, mas sempre complexa, da solidariedade.

É que se formos predadores da condição humana, estamos a trilhar um dos caminhos da violência. E os monstros são sempre parecidos connosco!

Adalberto Dias de Carvalho


  
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