Página  >  Opinião  >  Sobre a violência nas escolas

Sobre a violência nas escolas

Estudos revelam que a violência acontece, indiferentemente, em escolas públicas ou privadas, com alunos de qualquer estrato sociocultural e em diferentes graus de intensidade e variedade. Seja como for, teremos de assumir que o fator sociedade é determinante. E teremos de refletir se a violência se gera na escola, na família/sociedade ou em ambas.

Uma sociedade com grandes diferenças a nível do rendimento socioeconómico das famílias não pode gerar ambientes de bem-estar agradáveis. Uma sociedade de pobreza, a vários níveis, não pode senão originar conflitos onde emerge a violência verbal e física.
Uma família que deixa os filhos à porta da escola às sete horas da manhã e os vai recolher 12 horas depois não tem ocasião para gerir todas as emoções: de filhos e de pais. É imprescindível rever os horários de trabalho em Portugal, sobretudo de famílias com filhos ainda muito jovens.
Quem cresce em ambiente de violência acaba por levá-la para a escola. E ela pode refletir-se na indisciplina, na incapacidade de ter um comportamento correspondente a uma norma exigida, na impossibilidade de adaptação a regras a priori estranhas, na inaptidão para amar o próximo. Porém, antes de julgarmos, convém que nos lembremos de que a criança emocionalmente perturbada também precisa de apoio.
A violência esporádica entre alunos (brigas, disputas, etc.), não sendo exagerada, pode facilmente incluir-se nas fases de crescimento. Muitas vezes, pais, jornais e outros exageram em relação ao que deve ser pouco, mais do que alvo de atenção, criando uma ilusão.
O bullying tem sido uma forma de violência bastante evocada nos últimos anos como a mais comum nas escolas: um ou mais alunos, repetidamente, assediam, intimidam física ou oralmente um colega, o que poderá vir a ter consequências graves em todos (sono, enurese, dores de barriga, reações emocionais estranhas), sem que os adultos de tal se apercebam, uma vez que, por medo ou vergonha, ou até por falta de ocasião, os jovens calam-se.
A violência na escola manifesta-se também na falta de cidadania, no pouco respeito pelas regras da democracia, no vandalismo, na indisciplina nas aulas. E, em Portugal, mais recentemente, na agressão verbal e física a professores. O que nos remete para uma análise mais profunda: que representação têm os nossos jovens da escola? que ideia têm as comunidades escolar e educativa do que deve ser uma escola?

O que deve ser a Escola. A ideia do que deve ser uma escola tem-se alterado profundamente ao longo do último século. Primeiro, nem todos iam à escola; depois iam mais, mas só durante três ou quatro anos; depois mais um pouco; e mais; e mais... Hoje a escola é o espaço social (único!) onde é possível ‘guardar’ durante todo o dia jovens desde os 3 anos até aos 17 ou mais. O que evidencia bem que não pode funcionar de acordo com as mesmas matrizes de há 100 anos. O que demonstra bem que a imagem da escola e dos que nela trabalham tem de ser altamente íntegra e não pode ser posta em causa, nomeadamente, pelos que detêm a tutela do Ministério da Educação.
Em primeiro lugar, já não vivemos na escola tempos de verdades absolutas, transmissíveis indelevelmente. Em termos sociais, há que assumir os princípios humanos mais inabaláveis como o respeito e a valorização da diversidade: combater a homofobia, o racismo, as lutas pelas opções religiosas. A escola não é feita de conteúdos abstratos a que muitos chamam curriculares. A escola versa a vida. Só assim poderá ter um papel importante na prevenção da violência.
É essencial organizar nas turmas debates sobre a violência e não só. Dar voz aos alunos e respeitar as suas formas de pensamento, ainda que imaturas e diferentes. Permitir que, sem darem por isso, se impliquem: vítimas, testemunhas silenciosas e até agressores.
Que cada um possa exteriorizar as suas emoções, ganhar empatia com a escola e com os colegas e os professores. Ganhar tempo para comunicar, para falar de si, é alcançar vida e conhecimento.
Não, os professores não são psicólogos dos alunos, nem os psicólogos o são em relação aos seus filhos. Mas estão atentos. Dar a volta ao (con)texto. Andamos há mais de 40 anos a dizer que o modelo industrial da campainha que toca para cada um ir para o seu espaço não funciona, mas tudo continua quase igual na Escola. É necessário reorganizar os tempos, os espaços, os recursos humanos.

A indisciplina na sala de aula, hoje tão badalada, e que se manifesta em comportamentos disruptivos de provocação e desafio aos professores, terá certamente uma relação direta com a imagem que muitos governos tentaram transmitir das escolas e dos docentes e não docentes – para lhes poderem pagar cada vez menos, afinal – ou com a forma como funcionam algumas famílias, mas centra-se muito na inadaptação das práticas letivas aos dias de hoje.
É necessária uma perspetiva pedagógica e didática que torne a aula – que deve ser muito mais do que uma sala fechada – dinâmica e atrativa: trabalhos em grupo, projetos que promovam a cidadania, desportos em equipa, clubes, bibliotecas, jogos didáticos que difundam boas práticas, cinema, teatro, exposições, visitas de estudo e passeios, têm de fazer parte do quotidiano das escolas portuguesas.
Sobretudo, os governos têm esquecido as expressões artísticas ano após ano e o papel que elas têm no desenvolvimento e no equilíbrio emocional dos alunos. E isto implica a contratação de outros técnicos especializados, quiçá para as primeiras horas da manhã ou fim da tarde, ou para todo o dia, de forma a que os alunos não estejam sozinhos.
Por outro lado, a dinamização dos recreios e/ou de outros tempos livres permitiria um decréscimo das situações de violência. A flexibilidade curricular, estandarte deste governo, poderia bem ter aqui um papel importante, não fora a sobrecarga de trabalho para os docentes e a burocratização a que a Inspeção Geral da Educação, muitas vezes, parece sujeitá-los.
A formação inicial de professores tem de preparar para tudo isto. Para que os alunos não reajam violentamente se os acharem muito permissivos ou muito autoritários; ou que não respeitam a equidade e são injustos. Para que saibam gerir conflitos eficazmente. Para que não se calem quando são violentados.
Naturalmente, o ratio adulto/aluno num estabelecimento de ensino é muito importante. Também os não docentes têm de ter formação e de saber lidar com os alunos, exercendo sabiamente o seu poder, vigiando bem os locais onde ocorrem mais atos de violência, como o recreio, os pavilhões, os corredores, o portão de entrada.
Quando as escolas tiverem reconhecimento social, condições de trabalho razoáveis – incluindo vencimentos e desenvolvimento das carreiras – e boas equipas interdisciplinares, será mais fácil evitar a violência. Em colaboração com os pais e outros elementos da comunidade, requalificar-se-á a segurança nas escolas. Para todos.

José Rafael Tormenta


  
Ficha do Artigo
Imprimir Abrir como PDF

Partilhar nas redes sociais:

|


Publicidade


Voltar ao Topo