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Vai chamar-se Raquel, e assim será conhecida in illo tempore. Aliás, é deste modo que reage à saudação e é conhecida no local de trabalho onde ganha a vida honestamente. Aí mesmo: numa farmácia, onde um dia conheceu um escritor crepuscular que ainda soslaiava uma cara expedita de mulher que se cruzasse com a sua e para mais a sorrir não se sabe se por dó, se de dor. Quando lhe saía ao caminho uma jovem a emitir sinais de não ser de todo insensível a homens calejados desde que soubessem apurar-se naqueles extensos manejos próprios da muita vida vivida, e já com baixíssimo valor facial, logo sabedores de caminhos, veredas, atalhos, labirintos, grutas, veios, estradas virtuais, pontes, campos de diversões, a asseverar a si mesmo que caso seja esta a musa deste conto não se chamará Gertrudes, nem Gioconda, nem Lady Gaga, e menos ainda Maria Vai Com as Outras, porque ele, o escritor, dono e senhor de muitos nomes de mulheres ao longo de uma vasta obra romanesca, que o nome de Raquel, omitira, sem ser por mal, esse nome estava em aberto na sua família onomástica de musas ficcionadas. E agora aquela Raquel, que voara ao seu encontro às cavalitas do distintivo de plástico amparando o busto harmonioso de adolescente da funcionária que me traduzia a receita médica nas partes em que os médicos pugnam em ser tão intelectuais ou mais do que os que o são de facto, e cedem às mãos da garota que resgata o meu apagamento onomástico, Raquel chamada, a descodificação da charada clínica, para que o escritor a leve a sério pois para que lhe serviria embirrar com a rapariga se ela não mudara de cara e mantendo o sorrisinho malicioso que diz claramente estes médicos, se não fôssemos nós, claro, a clarear-lhes a prosa, não sei o que seria deles, e tudo por causa às vezes de um til, de um acento grave em vez de um agudo, ou acento circunflexo e tal...
Para alcançar o fim em vista, fazer de Raquel a minha musa, tive curiosidade em saber, custasse o que custasse, confidencial ou não, casada, como manda a lei, qual era o significado daquela aliança de prata. Está na mão errada, disse ela, e acrescentou que não, não era casada à antiga, é a mêma coisa, afiançou, hoje em dia é a mêma coisa, hoje já ninguém se casa, é só despesa, sim, disse a menina da farmácia, tanto faz, fazer um casamento de estadão para quê, se está tudo inventado, já não há andorinhas, nem ouriços, nem doninhas, nem rãs, nem flores de laranjeira, nem pirolitos, nem gasosas, nem escorpiões, até a vida está pela hora da morte, disse ela. Veja-se a voga das incinerações. Se lhe exigirem apenas uma aliança de comprometida na mão errada, aguente, é assim a vida agora. E ela, sempre em jeito filosofal: andaram as pessoas antigas a casar-se para quê se vai tudo dar ao mesmo saco e pode sair dali um romance, um poema, um conto, à mesma, o que pensa o senhor, se o senhor é isso que faz, e se o que faz é bem feito, valeu-lhe ter-me oferecido um livro com a sua chapa escarrada na página dois, senão ia lá acreditar em si, assim fui forçada a vergar a mola e até vou pensar se a sua escrita vale alguma coisa, se vem na Internet e assim, porque se estiver na Net, no Facebook ou no Youtube garantidamente não me incomoda nada ser sua musa, percebe? Se calhar até vou gostar do desafio, quem poderá sabê-lo? Só experimentando.
E falando olhos nos olhos, disse-me ela, descontraidíssima: – Isso de ser a musa seja do que for, rende? – Render, render... Emigrando para Marte, dá mais. – E há lá piolhos? Baratas? Carraças? Varejeiras? Percevejos? – Se não houver, levamo-los. Há Facebook, vagalumes, salário mínimo e reforma antecipada melhorada. Pretende montar lá uma farmácia ou uma drograria? – Ainda não sei bem. E robots? – Já lá estão. Só masculinos. Preparam-nos para escreverem cartas de amor. – Para mandar a quem? Veja lá bem se me quer para sua musa. Olhe que sem o Facebook não passo. – Há Facebook em Marte! Confie em mim! – Ser musa é concretamente o quê? – Ser musa é ver o nome próprio elogiado, gabado, eleito, inspirador. – E acha que em Marte, na categoria de musa de um escritor crepuscular, tenho hipótese? – Logo vê Raquel, se algum astronauta andou por lá aos papéis. E se os achou e os guardou bem guardados, à espera da sua chegada? Aproveite. Ou cuida arranjar marido oficial, com papel e tudo, só com uma argola no dedo mindinho e berloque de prata na mão errada, em meio tão conservador? – E quem lhe enfiou o garruço de que, a ir, irei à caça de um astronauta? Deixou-me sem fala. – Caso me sinta tão bem como estou, se é a mêma coisa...
Júlio Conrado
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