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Quando Ícaro se agita sem peso

A catástrofe é uma categoria filosófica importante e é sobre ela que Thomas Bernhard discorre num dos monólogos mais escandalosos algum dia escritos. O gesto moralizador da tragédia transformou-se agora numa operação social e mediática, é um produto informativo, manobrado, oficial, impotente.

“Paisagem com a Queda de Ícaro” é um quadro atribuído a Pieter Bruegel, cuja “forma significante”, diriam alguns formalistas, expressa uma forte tensão, não só narrativa. Essa tensão constitui-se, talvez, no elemento mais perturbador da cena pintada por Bruegel, a julgar também pelo seu título evocativo – esse acontecimento lendário da queda de Ícaro sem que ninguém se aperceba.
No quadro, do século XVI, um agricultor segue concentrado com a mão no seu arado, as embarcações, os rochedos e a cidade permanecem ali, inabaláveis. Enquanto aquela vida à beira mar decorre tranquila, Ícaro morre afogado, numa indiferença a tudo o que à sua volta se passa, imperceptível quase aos nossos olhos.
O que perturba realmente não é tanto a lenda em si, embora terrível. Apesar de as pernas de Ícaro na água estarem tão próximas da costa, o pastor que ali segue o seu dia-a-dia olha para o céu, de costas voltadas para o mar, talvez como qualquer um de nós, incapazes de percepção da realidade, esse facto atroz que é a consciência de que estamos sozinhos no meio dessa realidade.
Há uma passagem de Jorge Luís Borges a propósito das estrelas que não nos faz pensar em ternura. Como ele diria, “as estrelas olham para baixo”. Gerações e gerações de pessoas continuam entregues a uma disciplina diária, debaixo do olhar indolente das estrelas; são elas as testemunhas de uma vida humana assolada pelas mais soturnas e adversas condições.

Perturbação. Estes dois breves apontamentos levam-me a um livro escrito por Thomas Bernhard durante os anos de 1960, «Perturbação», cujo o universo não poderia deixar de ser inquietante.
Não pretendo fazer uma teoria sobre o gesto trágico no qual pode traduzir-se a leitura deste ou de um outro qualquer livro de Bernhard. Muito menos apontar em que medida seremos interceptados por um poderoso governo divino, à imagem de Ícaro, e a cuja ordem natural estaremos condenados a encomendar as nossas próprias catástrofes.
Mas há uma, muito em particular, que atravessa a literatura de Thomas Bernhard – a catástrofe sempre latente que existe na cabeça de cada um, própria de cada um. Como sabemos, a catástrofe é uma categoria filosófica importante e é sobre ela que o escritor austríaco discorre num dos monólogos, na minha leitura, mais escandalosos algum dia escritos.
Em Thomas Bernhard a linguagem é um espaço absoluto, um escândalo feito de suspensão apenas temporária, um objecto necessário que estorva o caminho. O seu exercício individual, possível apenas pela linguagem, corresponde a um conflito permanente consigo próprio e com a cultura, sobretudo, com a cultura do pensamento moderno, asséptico na relação com a morte, hoje mais burocrática do que nunca no que toca à ‘paixão’.
Quando entramos, «Perturbação» é um livro muito complexo de abandonar, é como se fosse um daqueles dispositivos que nos captura totalmente. A nossa única possibilidade é não deixar de ler, mesmo que este gesto inevitável seja, em Bernhard, qualquer coisa de desprezível, “a mais suportável de todas as repugnâncias”, tal como diz o príncipe Saurau no monólogo-delírio que constitui a segunda parte do livro.
O jovem narrador, filho de um médico que percorre aldeias e casas numa Áustria rural difícil de imaginar, observa silenciosamente as visitas do pai, escuta e comenta connosco, numa espécie de sobrevivência nunca alcançada, o problema de se ser esquecido pela loucura, “pela doença do corpo ou do espírito”, o sofrimento associado à memória, à tentativa de compreensão das coisas e dos outros.

“O que é trágico”, ouvimos dizer o príncipe ao médico, “é que nunca ninguém tenha notado os barulhos dentro da minha cabeça”; é como se o víssemos agora dizer o texto em cena, numa discussão cuja voz vai e volta a um mesmo drama, incessante, textualmente fatal.
O príncipe Saurau é uma personagem central neste livro de Bernhard. É com ele que mantemos a leitura mais repugnante do livro, porque o seu monólogo, exaltado e decadente, coloca-nos perante a catástrofe da morte imperceptível. Podemos achar, a certa altura do seu discurso, que é tudo um excesso desmedido, extasiado e arrogante, isto de acharmos que é uma necessidade vital possuir-se uma base filosoficamente sólida para justificarmos o sentido das nossas próprias incapacidades, continuando a fazer espelho da nossa própria razão, nem que seja pela tentativa satírica de fuga à natureza.
Porém, a discussão do príncipe Saurau pode simbolizar precisamente essa paixão da queda, à qual Ícaro não foi capaz de resistir; uma desmesura literária, hoje em dia, totalmente erradicada do espaço das nossas vidas. Não é a Ícaro que Bernhard recorre através do monólogo do príncipe. É bem mais possível que seja o leitor, tal como eu neste texto, a ensaiar essa presença, numa época aparentemente obcecada pela tragédia da morte e do sofrimento. Todavia, visível apenas na sua contínua repetição, a tragédia como ‘palavra’ (mítica, política, filosófica) encontra-se hoje votada a um efeito de desaparecimento. Desprovida de qualquer elemento histórico, no sentido privado do termo, ela tornou-se num surrealismo universal, supostamente aqui, diante dos nossos olhos, explorável até à sua desnaturalização.
Continuamos a temer que Ícaro se afogue ou desapareça, que ninguém note. Mas aquele gesto moralizador da tragédia, e que me parece estar ali no quadro de Bruegel (foi dele que viemos) transformou-se agora numa operação social e mediática exibida a cada instante, é um produto informativo, manobrado, oficial, impotente.
“O tempo de duração de uma vida”, ouvimos ainda no livro de Thomas Bernhard, “não chega para conseguirmos que nos compreendam”. Isto é um pensamento tragicamente concreto.

Paulo Nogueira


  
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