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É esta a minha última intervenção neste excelente espaço de troca de ideias, não podendo eu deixar de referir o gosto que tive em partilhar com os leitores algumas opiniões (diversificadas em excesso, talvez, sem grande coerência) que queriam ser sobretudo despretensiosas.
Permito-me, para garantir o retorno às origens, i. e., alguma circularidade, voltar a falar da terra onde nasci: Covas, freguesia do concelho de Vila Nova de Cerveira. Este nome, que tem distintas origens, segundo os estudiosos do tema, parece ajustar-se, pelo menos isso, à própria configuração do território, um buraco entre serras (uma delas a Serra de Arga), no fundo do qual corre, com as interrupções impostas por duas barragens e os efeitos negativos delas sobre a fauna piscícola (trutas, bogas e outros seres aquáticos, como as enguias), o Rio Coura, que, à semelhança do rio da aldeia de Fernando Pessoa, “não faz pensar em nada / quem está ao pé dele está só ao pé dele”. E garanto que, no mínimo, é tão belo como o Tejo. Antes, quando eu era criança e adolescente, podia fazer-se mais qualquer coisa além de pensar. Podia pescar-se: era um prazer percorrer as suas margens carregadas de salgueiros e estender a cana-da-índia com a sediela e o anzol iscado por cima das águas, ora rápidas ora remansosas, para aguardar que o peixe picasse. Mas a minha terra, que despachava gente para Lisboa, para a França e a Venezuela, também teve umas minas de volfrâmio que, durante e imediatamente após a guerra, enriqueceram poucos e encherem de silicose os pulmões de muitos. É claro que já fenícios e romanos que por lá andaram, para não falar dos celtas, se dedicaram a escarafunchar a terra, nesses tempos à procura de estanho, ao que consta. Mas fizeram-no demasiado perto da superfície para sofrerem de silicose, sorte a deles. É certo que também morriam, mas de escaramuças, que é morte de guerreiros, a melhor maneira de chegar à presença dos deuses que adoravam.
Ou Covas, ou Londres. A minha terra, essa que era tantas vezes visitada pelo maior dos nossos poetas menores, Pedro Homem de Melo, por causa de um excecional tocador de concertina e malicioso autor de cantigas ao desafio, Nelson Vilarinho, teve também algumas figuras dignas de registo. Aquela que quero referir agora é um morgado, justamente o Morgado de Covas, filho do primeiro morgado que, por sinal, tinha nascido não em Covas, mas perto, em Sopo, freguesia a caminho de Vila Nova de Cerveira, famosa pelos seus canteiros – não de flores, mas artistas da pedra, i.e., mestres canteiros. Pois bem, esse canteiro, cujo nome era Manuel Domingos da Costa Barreira, celebrizou-se com vários trabalhos importantes – por exemplo, o Santuário dos Remédios, em Lamego – e recebeu do rei D. Luís o título de morgado. O filho, Francisco de Lima da Costa Barreira, tornou-se um excelente cavaleiro tauromáquico, tendo muitas vezes actuado em parceria com um parente meu chamado Telmo de Menezes Montenegro, da Casa Grande de Romarigães, não muito bem “romanceado” por Aquilino Ribeiro na sua conhecida “crónica romanceada”. O que aqui me interessa relatar é o modo desempoeirado como terá respondido ao rei D. Carlos numa das suas atuações no Campo Pequeno. Reza a lenda que D. Carlos, impressionado com a excelência da lide do Morgado, desceu à arena para o cumprimentar e manifestar o seu espanto por ele viver numa terreola desconhecida, encafuada nos confins do Alto Minho. Continua a rezar a lenda que o Morgado respondeu às palavras do rei com uma frase que, para mim, é um monumento de orgulho e de amor ao torrão natal, mas também de vistas mais cosmopolitas e ilustradas: “Saiba Vossa Majestade que, para mim, ou Covas ou Londres.” Quer dizer, fica tu com Lisboa que eu sei muito bem o que quero: por um lado, a calmaria da santa terrinha, por outro, a animação da grande capital imperial. Consta que também não se sentia mal por terras de sevilhanas...
Província, minha província. Importa ainda salientar que Covas – não aconselho visitas no inverno, já que a humidade e o frio que por lá campeiam abatem qualquer cristão que não esteja na plenitude dos seus dotes de saúde, i. e., que não tenha ossos e carnes rijos – tem outra característica muito positiva: fica no centro de um rectângulo (mais ou menos) dentro do qual cabem Valença, Monção, Melgaço, Vila Nova de Cerveira, Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Caminha e Viana do Castelo. Pode pedir-se mais? Não. Bastaria Ponte de Lima e, sobretudo, Viana do Castelo – essa cidade de fidalgos e burgueses; lembram-se de quando escrevi uma crónica sobre a Senhora da Agonia – são lugares mágicos, onde se sente a verdadeira essência da “província, minha província”, para recorrer à frase do referido Pedro Homem de Melo. Haveria naturalmente muito mais a assinalar, talvez mesmo os meus pais, professores primários ambos, que ensinaram gerações e gerações de covenses a ler e escrever, a somar e diminuir, preparando-os para enfrentar melhor vidas a duras penas. Concluo dizendo que na minha terra, onde há de sobra (pelo menos para mim) aquilo que Michel Butor apelidou de esprit du lieu, me é oferecida uma reserva de sanidade mental (obtida sem necessidade de contacto com ninguém) que ressuma das árvores, do ar, do rio, da serra, do vento, da chuva, dos ares do outono e da primavera. Lá reencontro uma parte de mim que a cidade abafou, mas não desiste de viver: o sabor da ingenuidade. Acredito, quero acreditar, que todos aqueles que tiverem uma terra assim, seja em que província for, sentirão o mesmo: não há experiências exclusivas, apenas difusamente distintas.
Salvato Teles de Menezes
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