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Lugar aos novos

A equipa de “Textos Bissextos” despede-se da PÁGINA e dos seus leitores. Andamos por aqui desde 2004. Tive o gosto de coordenar cinco equipas de colegas e amigos que se foram refazendo ao longo destes 15 anos. Em comum, tínhamos apenas o prazer da escrita. A José Catarino, Júlio Conrado, Salvato Teles de Menezes, Paulo Raposo, Filipe Reis, António Mendes Lopes, Ana Laura Valadares Araújo, Paulo Nogueira, José Guimarães, Luís Vendeirinho, Darlinda Moreira, Elisa Costa e Telmo Caria, o meu reconhecimento e gratidão. Estou certo que são também os sentimentos da redacção desta revista.

“Libertei-me da tirania da minha intensidade!”
Philip Roth, «O Fantasma Sai de Cena»

Depois de 45 anos de função pública, 43 dos quais no ensino e 33 como professor-adjunto e professor-coordenador na Escola Superior de Educação de Setúbal, chegou a hora da aposentação e do adeus editorial. Esta dupla decisão assenta num princípio basilar – dar o lugar aos novos!
Abandonei a docência (empenhada) no ensino politécnico no final de Março. Tinha o direito de continuar a exercer funções lectivas até aos 70 anos – ou mesmo até aos 75, segundo o DL no 6/2019 de 14 de Janeiro, que introduziu alterações à Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas e ao Estatuto da Aposentação.
Não deixei o ensino por estar em burnout, cansado de aturar acomodados colegas yes(wo)men ou direcções de escola inaptas e sectárias; sequer por o artificioso presidente do instituto ter como estratégia privilegiada subir na escadaria do poder; menos ainda pelo fosso geracional com estudantes avessos a leituras; ou por os sindicatos não serem aguerridos e se revelarem incapazes de mobilizar os professores do Superior contra as malfeitorias dos últimos governos; seja, até, por os autarcas bacocos teimarem em ter uma universidade no seu concelho no lugar de um ‘descredibilizado’ instituto politécnico; tão-pouco por oposição às políticas governamentais (avaras e de vistas curtas) para este subsector de ensino.
Todas estas razões contribuíram para a minha insatisfação profissional, mas só por si não me fariam tomar esta irrevogável decisão: a de abandonar a prática docente aos 66 anos de idade (sem que houvesse problemas de saúde). Considero antes a minha atitude como um pequeno gesto para ajudar a renovar um sistema muito envelhecido. A lei permitia-me continuar ao serviço, mas a minha consciência cívica e ética coibia-me de o fazer.

Há que dar o lugar aos novos! Todavia, o sistema vem apontando em sentido contrário. Quer o estudo encomendado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, tornado público em Abril (Sustentabilidade financeira e social do sistema de pensões português, coordenado por Amílcar Moreira do ICS-UL), quer um relatório (economicista) da OCDE. O primeiro propõe como medida mais eficaz, entre as três hipóteses avançadas, a subida da idade de reforma para os 69 anos, e o segundo desencoraja a política de reformas antecipadas.
Os cenários demográficos de recessão estimam impactos económicos preocupantes, onde se vislumbram défices permanentes na Segurança Social: “Actualmente, por cada três pessoas em idade activa, há um idoso. Daqui a umas décadas, para cada três pessoas em idade activa, haverá dois idosos» (Luís Aguiar-Conraria, É a demografia e a economia, estúpido”, Público, 17.04.2019); “o país deverá perder, entre 2017 e 2060, cerca de um terço da sua população em idade activa, passando de 6,4 milhões de pessoas para 4,6 milhões” (Orçamento do Estado, 2019).
Mas a questão de fundo não está aí, é outra bem mais preocupante: o futuro dos nossos jovens está a ser continuamente adiado. Na UE, o desemprego total é de 7,6%, enquanto o desemprego jovem atinge os 16,8%. Portugal é dos países com mais elevada taxa de desemprego jovem: 23,8% contra os 18,6% na Zona Euro (dados de 2017).
Ora, no campo do ensino, a não entrada de gente nova ameaça profundamente a qualidade de vida das instituições e dos ‘produtos’ que aí se geram. Nas organizações sociais, um equilíbrio entre gerações é um ingrediente para a produtividade, a eficácia e o sucesso.
Os concursos de acesso à carreira vêm escasseando e, por isso, quando os há, acontece como na minha escola: num dos últimos em que participei como membro do júri, foi admitida como professora-adjunta uma pessoa com 58 anos... Naturalmente, com esta idade o seu currículo é imbatível por qualquer jovem em início de carreira. O mais certo é que a minha passagem à reforma dê lugar, quando muito, a um ‘menos velho’. Mas antes assim.
Sinto alguma dificuldade em entender a não revolta dos jovens face a este “horizonte cerrado”. Refugiam-se na emigração... Talvez para eles seja o mal menor; não o é, com certeza, para o país que os formou: os ‘ovos’ acabam por ir parar a outro ‘ninho’... no estrangeiro.
Concomitantemente, o abandono da colaboração (regular) em periódicos justifica-se por um princípio similar: há que rejuvenescer o corpo editorial... E desta revista também.

Luís Souta


  
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