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Da convergência da imagem documental com os estudos etnográficos resultou a concepção de toda a identidade visual da marca Raça Equina Garrana, conseguindo-se mediatizar uma nova ideia sobre estes animais, os seus habitats e as relações com os seus criadores.
Na Península Ibérica existem três raças de cavalos autóctones. O cavalo garrano é uma delas e esteve quase em extinção na década de 1970. Os garranos são cavalos de pequena estatura, robustos, com uma crina farta. É possível que a sua origem remonte à descendência de um elemento da fauna glacial do paleolítico na sua fase final. O Equus existiu ao longo de todo o Paleolítico na Europa ocidental, é um animal do qual existem inscrições e gravações na nossa arte rupestre quaternária. Há vários séculos, esta raça de cavalos tinha sido domada e adaptada à vida rural do noroeste português. Posteriormente, colocou-se a questão da mecanização da agricultura e, como era previsível, o desprendimento dos criadores por esses animais e o seu consequente regresso para as regiões de montanha em regime livre, portanto, semi-selvagem. Esta raça garrana vive em estado selvagem nas principais montanhas do Minho e do noroeste de Trás-os-Montes. Os criadores deixam os cavalos em liberdade, a pastar durante todo o ano na montanha. No Verão, os garranos sobem aos pontos mais altos para encontrarem uma alternativa fresca ao calor sentido no sopé do monte. Da parte dos criadores, formou-se uma atitude mais civilizada e culta, que advém do desenvolvimento, com o tempo, de uma consciência ecológica e ambiental.
Projecto documental. O nosso envolvimento neste projecto não se limitou a dar um sentido documental ao passado de uma raça, mas serviu, sobretudo, para reafirmar o interesse cultural deste microssistema: cavalos-natureza-homens-território. Criou-se uma estratégia de comunicação para esta raça, que passou pela produção de um vasto repertório documental aplicado em diversas frentes de uma realidade que foi desenvolvida em diversos suportes visuais. Coube-nos, também, verificar e validar a pertinência actual do interesse etnográfico das culturas de montanha. Por isso, esta reflexão pretendeu testar a seguinte possibilidade: a convergência da imagem documental com os estudos etnográficos do qual resultou a concepção de toda a identidade visual e da marca Raça Equina Garrana, conseguindo-se mediatizar uma nova ideia sobre estes animais e sobre as variantes dos seus habitats e das relações com os seus criadores na montanha. Os criadores foram tomando consciência de que a paisagem habitada com estes animais se tornaria um sistema de cultura local, com o qual todas as populações se começaram a identificar. Particularmente nos dias de hoje, esta constatação pode verificar-se mais acentuadamente na Serra da Cabreira, nos concelhos de Vieira do Minho e Cabeceiras de Basto, onde existe um forte núcleo de garranos e de criadores organizados numa associação constituída para preservar esta raça. Foi no contexto deste espaço geográfico que mais contributos recebemos para o nosso projecto documental.
Elemento de aglutinação e motivação. De acordo com a observação e compreensão no decurso do trabalho de terreno, foi-nos possível constatar que o garrano é um cavalo que, devidamente “educado”, se torna um animal dócil e generoso. Portanto, adapta-se a actividades lúdicas, tendo um bom relacionamento com o Homem. Este cavalo autóctone, que habita as serranias do Norte de Portugal, participa, desta forma, numa acção de desenvolvimento sustentado das populações que habitam o mundo rural do Norte português. Mais concretamente, destaca-se o seu papel junto das actividades de turismo de montanha, nas terras altas de Entre-Douro-e-Minho. Por isso, esta investigação teve lugar em diferentes regiões montanhosas do Norte de Portugal, existindo a preocupação de compreender diferentes situações, de acordo com a implantação dos casos de estudo (animais e criadores) em diferentes contextos geográficos, para virmos a ter um ponto de vista – a determinante geográfica, o Norte e a montanha – no apuramento de um padrão de cultura local. Observámos que o fenómeno dos garranos e da prática sociocultural dos criadores não poderá ser desligado da morfologia da montanha e/ou das ancestrais tradições comunitárias dos povos do Norte montanhoso. Nesse contexto, o garrano pode ser um elemento de aglutinação e motivação para o enriquecimento cultural desse espaço de montanha, as terras altas do Minho. Consideramos que as tecnologias de informação assumem um papel activo na preservação das culturas que poderão estar em vias de desaparecimento num contexto de uma ecologia mais política. Essas tecnologias podem desempenhar uma função de redescoberta, preservação e promoção, à escala local, regional e nacional, das raças de cavalos e das culturas que lhes são inerentes. Além disso, podem aproximar as associações de criadores numa grande rede, na qual podem aceder, de uma forma muito rápida, a informações vitais à protecção das culturas associadas a esses animais. Nesta rede, terá todo o cabimento a inclusão e activação das escolas com os seus actores predominantes: os estudantes e os professores.
Adriano Rangel
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