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O pleno desenvolvimento da poesia na escola só se realizará, contudo, no limite da alteração das regras escolares, da reformulação integral da forma de conceber a Criança, o Homem e seu papel no mundo. Por aí, supomos, se estabelecerão novos caminhos.
Entendemos que a poesia se faz ao mesmo tempo como universo de liberdade e de limitações. O importante, nesse exercício de imaginação, é que o aluno descubra seu poder e o exerça estimulado pela poesia e pelo professor. Na verdade, o texto funciona, nesse passo, como pretexto lírico para o seu caminhar. É aí que podem surgir os ensaios de criação, de composição de outros textos, em que o professor poderá ver nos alunos, não outros ‘poetas’ (o que seria um equívoco), mas a possibilidade de expansão criadora do aluno através de sua palavra. A meta dessa etapa é a da expansão da criação. A da qualidade da linguagem só virá com o tempo, com o exercício, a leitura, a mestria da linguagem poética, fruto de amadurecimento emocional e cultural. O ‘desvendamento’ das imagens não significa, evidentemente, a paráfrase do poema, o que equivaleria a desfazer o próprio texto. Cabe aqui o trabalho de equivalências de sentidos, propostas em jogos, em que ao professor compete orientar o aluno para outras criações. Coloca-se nesse ponto a própria questão da ambiguidade da poesia, em que fica claro que um poema não tem “uma” chave, mas muitos significados. No momento em que o criou, o autor deixa de ser o seu dono. A descoberta dessa possibilidade é outro caminho que se abre ao jovem leitor como aventura. A percepção de que existem muitas formas de dizer, de que o poeta pode aproximar realidades aparentemente distantes (pelas imagens, metáforas e outros processos), recupera para o aluno um processo primitivo de combinação do real, que, de certa forma, é muito próximo a ela. Evidentemente, à medida que as analogias e associações se tornam mais complexas e as exigências do texto se tornam maiores, por sua abstração e/ou hermetismo, mais difícil é, para o aluno, essa incursão no universo do imaginário, e ele precisa ser orientado. No entanto, os processos mais simples são evidentes e é por eles que o professor descobrirá os mais ricos percursos na exploração dos estados poéticos.
Espaço de liberdade. O poema coloca ainda em questão a disposição da palavra no espaço do papel. Aqui, o texto poético se aproxima das formas visuais de expressão artística – desde as mais tradicionais até às mais inovadoras: vejam-se os ‘pôster-poemas’, os painéis e outras formas mistas. É ‘dando-se a ver’ que o poema se faz, isto é, na própria combinação das palavras, na sua distribuição sobre o papel, que se criam os silêncios e as pausas necessárias para a construção do que se vai dizer. O texto poético se escreve no ritmo de palavras e pausas, de reflexões e entonações marcadas graficamente, onde o espaço em branco é fundamental. A poesia moderna, que fez do signo verbal um uso muito maior do que a tradicional, faz desse aspecto um ponto essencial para a compreensão de seu significado. Esses processos, valorizados na moderna poesia ocidental a partir de Mallarmé, têm função básica nas primeiras percepções da criança. O leitor iniciante de poesia identifica, na distribuição das palavras na folha branca, uma parte indissociável da estrutura do poema. O espaço em branco é o da liberdade do leitor, de seu diálogo com o poeta. A isso aludia Mário Quintana ao dizer que os livros de poemas deveriam ter sempre margens grandes para as crianças desenharem. Sem espaço – visual e interno – não há repercussão do texto poético, resposta interior do leitor. Essa percepção pode ser desenvolvida, através do exercício, do reconhecimento dos textos, da leitura de poemas diferenciados graficamente. A prática da leitura de poesia está esquecida na maioria das escolas e, se o professor não tiver o hábito de ler poemas e não criar possibilidades de criação e interação, dificilmente conseguirá despertar esse interesse em seus alunos e muito menos mostrar a importância que ela tem para o desenvolvimento da sensibilidade e do emocional do ser humano. O pleno desenvolvimento da poesia na escola só se realizará, contudo, no limite da alteração das regras escolares, da reformulação integral da forma de conceber a Criança, o Homem e seu papel no mundo. Por aí, supomos, se estabelecerão novos caminhos.
José Miguel Lopes
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