|
O filme mais aguardado deste ano, “The Irishman”, de Martin Scorsese, um drama de gangsters escrito por Steve Zailian, com a participação de Robert de Niro, Al Pacino, Anna Paquin e Joe Pesci saído propositadamente da reforma, vai ser distribuído pela... Netflix! Quem pode duvidar das credenciais e da paixão de Scorsese pelo cinema? Ninguém, suponho, pensará que Scorsese se associaria a alguém que prejudicaria o cinema. A simples existência de “The Irishman” é um argumento poderoso na polémica de Março passado. A Netflix pode gabar-se de andar nas bocas do mundo, depois de Cannes ter recusado os seus filmes na edição do ano passado. A Netflix levou-os a Veneza e estreou “Roma”, de Alfonso Cuorón, “The Ballad of Buster Scruggs”, dos irmãos Cohen, e, talvez mais importante, a cópia restaurada do lost film de Orson Wells, “The Other Side of the Wind”. Mas os argumentos anti-Netflix foram reavivados com as declarações de Steven Spielberg: “Eu não acredito que os filmes que têm estreias simbólicas em alguns cinemas por menos de uma semana possam ser nomeados para os Óscares.” Spielberg sugeriu mesmo que deveriam concorrer apenas aos Emmys como telefilmes. Quem está certo? Ou melhor, quem é o justo mais fraco? Aqueles que simpatizam com a Netflix contestam os seus oponentes por se apresentarem como os legítimos herdeiros do Cinema – com maiúscula – que lutam contra o monstro corporativo que pretende esmagar os valores comunitários dos cinemas. Pelo contrário, dizem, a Netflix está a desafiar os privilégios dos do costume. Os homens brancos. Franklin Leonard, de “The Black List”, tweetou: “Também acho que todos nós podemos concordar que é mais difícil filmes de e sobre mulheres, negros e outras comunidades, terem acesso aos recursos necessários para garantir a sua permanência nos cinemas por mais de uma semana.” Em “A Winkle in Time”, a realizadora Ava DuVernay apoiou-o. Mas talvez o problema seja o do costume: o dinheiro, a massa, o graveto, o pilim... O boom da Netflix é uma espécie de febre louca das tulipas que depende apenas do dinheiro emprestado. Afinal, os assinantes não cobrem as despesas. Em Outubro passado, a Netflix pediu emprestados 2 mil milhões de dólares além da dívida existente, que já era de 28 mil milhões de dólares, que certamente não é coberta pelos 130 milhões de clientes por todo mundo. E, last but not least, enfrenta um novo concorrente: o streaming da Disney. Em resumo, a Netflix está a apostar no crescimento contínuo para cobrir os custos... Sabemos como, normalmente, isso acaba.
Paulo Teixeira de Sousa
|